quarta-feira, 27 de junho de 2007

Letras do Tango

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Carlos Lyra

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Carlos Lyra

Carlos Lyra (Carlos Eduardo Lyra Barbosa), compositor, cantor e instrumentista, nasceu no Rio de Janeiro em 11/05/1939. Por várias gerações, a música faz parte das atividades de sua família. Estudou em colégio de jesuítas e aprendeu a tocar violão pelo método Paraguaçu. Ainda no colégio, conheceu Roberto Menescal, que também tocava violão, e os dois começaram a estudar juntos, nascendo nessa época a idéia de formar uma academia de violão.
A escola, que funcionava em Copacabana, virou ponto de encontro de futuros artistas, como Marcos Vale, Edu Lobo, Nelson Linse Barros, Nara Leão, Chico Feitosa e Ronaldo Bôscoli (um de seus primeiros parceiros), e teve grande influência na divulgação do violão como instrumento importante na bossa nova.
Nessa época, apresentava-se em festas, tocando e cantando com amigos. Sua primeira composição foi o samba-canção Quando chegares (1954), que só mais tarde receberia letra. Apresentou em 1954, em concurso na TV-Rio, sua composição Menina, defendida pelo cantor Carlos Dias (depois Geraldo Vandré).
No ano seguinte, Sílvia Telles gravou a música em 78 rpm, pela Odeon, que trazia ainda Foi a noite (Tom Jobim e Newton Mendonça), e que foi considerado um dos discos precursores da bossa nova.
Em 1956 compôs Maria Ninguém, letra e música de sua autoria. Participou, nesse período, do conjunto de Bené Nunes, tocando violão elétrico. Em 1957, Os Cariocas gravaram, de sua autoria, Criticando, samba-colagem, com fragmentos de bolero, jazz e rock-balada. Começou também a se apresentar em shows universitários, ao lado de Alaíde Costa, Sílvia Teles, Oscar Castro Neves, Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal.
Em 1959 destacou-se com Lobo bobo, Saudade fez um samba (ambas com Ronaldo Boscoli) e Maria ninguém, gravadas por João Gilberto no LP Chega de saudade, na Odeon. Ainda em 1959, gravou o primeiro disco: Carlos Lira -Bossa nova, pela Philips, com texto de Ary Barroso na contracapa. Em 1960 musicou a peça A mais-valia vai acabar, seu Edgar, de Oduvaldo Viana Filho, e compôs Gosto de você (com Carlos Fernando Fortes). No mesmo ano, conheceu Vinícius de Moraes, seu parceiro em inúmeras composições, entre as quais Você e eu, Nada como ter amor, Coisa mais linda e Minha namorada.
Em 1961 lançou Se é tarde, me perdoa e Canção que morre no ar (ambas com Ronaldo Bôscoli), e Quem quiser encontrar o amor (com Geraldo Vandré). No mesmo ano musicou duas peças infantis de Maria Ciara Machado (O dragão e A fada) e a peça de Francisco de Assis e Nelson Lins e Barros, Um americano em Brasília, da qual faziam parte as músicas Mister Golden (com Daniel Caetano), Maria do Maranhão (com Nelson Lins e Barros) e Canção do subdesenvolvido (com Chico de Assis). A última foi gravada sob o patrocínio da UNE, mas recolhido quando a peça foi proibida pela censura.
Ligado ao CPC da UNE, que procurava questionar a herança cultural da música popular brasileira, começou a fazer contatos com outros compositores populares, resultando daí uma parceria com Zé Kéti no Samba da legalidade. Mais tarde, comporia Influência do jazz, concluindo pela dificuldade de ligação da bossa nova com o samba tradicional.
Em 1962 musicou o episódio Couro de gata, de Joaquim Pedro de Andrade, do filme Cinco vezes favela, e a peça Gimba, de Gianfrancesco Guarnieri; e compôs Aruanda (com Geraldo Vandré), É tão triste dizer adeus (com Nelson Lins e Barros) e Pobre menina rica (com Vinícius de Moraes). Apresentou-se, em novembro do mesmo ano, no Festival de Bossa Nova, no Carnegie Hall, em New York, E.U.A., cantando Maria ninguém e Lobo bobo, show no qual o quarteto Bossa-Rio, de Sérgio Mendes, tocou Influência do jazz.
Em 1963 fez parte do elenco (sendo também o autor das músicas) da peça Pobre menina rica, apresentada inicialmente sob forma de show na boate carioca Au Bon Gourmet, com participação de Vinícius de Moraes (autor do texto e das letras das músicas) e da cantora Nara Leão, que estava sendo lançada. Sob sua direção, a peça foi montada depois no Teatro Maison de France, no Rio de Janeiro, e em seguida no Teatro de Bolso, quando então contou com a participação de Ari Toledo, cantando Pau-de-arara (com Vinícius de Moraes), interpretação que o tornou conhecido.
Ainda em 1963 voltou aos E.U.A., foi diretor musical do Teatro de Arena e do Centro Popular de Cultura, promoveu apresentações de Zé Kéti, Cartola, Nelson Cavaquinho e João do Vale, e musicou o filme Bonitinha mas ordinária, de José Pereira de Carvalho, além de ter composto com Vinícius de Moraes Marcha da quarta-feira de cinzas.
Gravou pela CBS, em 1964, com Dulce Nunes, Moacir Santos, Catulo de Paula e Telma, o LP Pobre menina rica, com músicas do show, como Cartão de visita, Sabe você, Marcha do amanhecer, Primavera, Pau-de-arara e Canção do amor que chegou (todas com Vinícius de Morais). Viajou, nesse ano, para os E.U.A., onde participou com Stan Getz do festival de jazz de Newport.
Em 1965 excursionou com Stan Getz por cidades norte-americanas e pelo Brasil, Japão, Canadá e Europa, e lançou pela Columbia o LP The sound of Ipanema, em parceria com Paul Winter. A partir de então, passou longa temporada no México, onde se apresentou com Stan Getz e, depois, trabalhou como locutor e tradutor nas Olimpíadas, musicou cerca de dez curtas-metragens e peças teatrais, fez jingles para a televisão e estudou teatro e literatura espanhola.
Compôs, em 1966, Lá vem o bloco (com Rui Guerra), e musicou o filme de Joaquim Pedro de Andrade O padre e a moça. Dirigiu em 1970, no México, a peça Ouviu falar em dragão, recebendo por esse trabalho o prêmio de melhor diretor e ator do ano. Lá, conheceu sua mulher, Katherine, atriz, cantora e modelo profissional, e em 1971 voltou ao Brasil para lançar os LPs ...E no entanto é preciso cantar, com participação de Chico Buarque, e Eu e elas, ambos pela Philips.
Fez a música Tudo o que eu sou eu dei para a telenovela O cafona, da Rede Globo, e compôs Essa passou (com Chico Buarque). Em 1973 mudou para a gravadora Continental e lançou o LP Carlos Lira. No ano seguinte, gravou o LP Herói do medo, que seria lançado em 1975. Ainda em 1974, mudou-se para Los Angeles, E.U.A., onde estudou astrologia. Dois anos mais tarde, voltou ao Brasil e lançou o livro O seu verdadeiro signo, pela Codecri, Rio de Janeiro.
Em 1979 participou do congresso da UNE em Salvador ocasião em que dirigiu coro de cinco mil estudantes na interpretação de sua música Hino da UNE, composta em parceria com Vinicius de Morais (1963). No ano seguinte, musicou a peça Vidigal, de Millor Fernandes. Em 1983 compôs, com Paulo César Pinheiro, as músicas para a peça As primícias, de Dias Gomes, e a música para a letra O negócio é amar, de Dolores Duran. Em 1984 estreou 25 anos de bossa nova, no Teatro dos Quatro; o show foi gravado ao vivo em 1986 e lançado em disco, pela gravadora 3M, no ano seguinte.
Em 1987 apresentou-se na Espanha com Caetano Veloso, Toquinho e Nana Caymmi. Um ano depois, apresentou-se no Japão, com Leila Pinheiro e o Quarteto em Cy. Em 1991, sua peça Pobre menina rica foi remontada, sob direção de Aderbal Júnior. No ano seguinte excursionou pela Espanha e Portugal, além de ter participado do Festival Pescara Jazz, ao lado de Gerry Mulligan e Gary Burton. Em 1993, após permanecer seis anos afastado dos estúdios, gravou no Japão o CD Bossa Lira, pela BMG-Victor. Em 1994 lançou pela Editora Lumiar o Songbook Carlos Lira, e, em seguida, o livro Ayanamsa - astrologia sideral, pela Editora Maltese. No ano seguinte, iniciou temporada de shows pelo Brasil.
Em 1996 compôs os temas de Policarpo Quaresma - Herói do Brasil (fiIme de Paulo Tiago), fez curta temporada no Japão e, no final do ano, estreou o show Vivendo Vinícius, com Leila Pinheiro, Toquinho e Baden Powell. Em 1997 lançou o CD Get us Bossa Nova (Pony Canyon Records) e estreou o show 40 anos de Bossa Nova, em Tóquio, ao lado de Roberto Menescal, Leila Pinheiro, Astrud Gilberto e outros.
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Carlos Nobre

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Carlos Nobre (Nomar Nobre Chatelairi), cantor e compositor nasceu em Vitória (ES) em 6/6/1934. Filho do maestro Antônio Nobre Filho, desde criança interessou-se por música, participando, aos 12 anos, com seus colegas do Colégio Americano, de Vitória, do conjunto Amantes do Samba. Prosseguiu seus estudos na Academia de Comércio de Vitória e trabalhou como entregador de roupa de uma alfaiataria.
Em 1952 foi servir o Exército no Rio de Janeiro (RJ), onde conheceu Paulo Gracindo e Adelino Moreira, que o incentivaram a seguir a carreira artística. Dois anos depois gravou seu primeiro disco Toada de amor (Peterpan), atuando também em programas das rádios Mayrink Veiga, Mauá, Clube e Nacional, participando do programa de Paulo Gracindo.
Em 1960 recebeu dois troféus Chico Viola por suas interpretações de Amor em serenata (Raul Sampaio e Ivo Santos) e Ciclone (Adelino Moreira), sendo esta última sua gravação de maior sucesso e campeã de vendagem naquele ano.
De suas 15 músicas gravadas, inclusive como intérprete, destacam-se as composições Pressentimento (com Roberto Bittencourt) e Amor desfeito (com Raul Sampaio). Na década de 1970 apresentava-se em programas de televisão, boates e restaurantes cariocas.
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Cartola

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Angenor de Oliveira, o "Cartola" nasceu a 11 de Outubro de 1908 no Rio de Janeiro, em um bairro chamado Catete. Ganhou o apelido pois quando trabalhava em obras, usava um chapéu coco, para não sujar os cabelos de cimento. Foi em 1919 que Sebastião, Aida e seus sete filhos chegaram no Buraco Quente, (um bairro no morro de Mangueira).
Era franzino, mas muito esperto, conta seu amigo e parceiro Carlos Cachaça, que já morava em Mangueira e ainda vive até hoje, (1997) aos 93 anos de idade. Cartola em uma entrevista disse: "Nos meus olhos, em Mangueira, só tinham uns cinqüenta barracos. E provavelmente estava certo.
Ele e seus companheiros fundaram a G.R.E.S Estação Primeira de Mangueira. Sua contribuição à Cultura Brasileira é inestimável. Sua concepção harmônica, suas melodias e versos são simplesmente maravilhosos. Mestres da Música como os maestros Villa Lobos e Stokovsky foram ao Buraco Quente conhece-lo e tomar conhecimento de sua obra.
Devido ao racismo, Cartola nunca foi economicamente bem sucedido. Trabalhou até como pedreiro para sobreviver, e no meio dos anos 60 o jornalista Stanislaw Ponte Preta encontrou-o lavando carros no bairro de Ipanema, e perguntou: "Você não é o Cartola?". "Sou", foi a resposta. Isso causou muito espanto ao jornalista, que passou a ajudá-lo, tornando-o mais popular. Cartola, gravou seu primeiro disco em 1974.
Mas sua vida não foi só de tristezas. Entre a metade dos anos 60 até sua morte em 1980 conheceu um pouco de popularidade (mas não dinheiro), e descobriu que todos que tinham a chance de ouvir suas canções, ou vê-lo tocar e cantar, passava a ama-lo. Através de suas canções, o povo brasileiro pôde entender um pouco mais a vida, e como lidar com o dia a dia de uma maneira mais poética.
Cartola partiu desse mundo deixando suas canções e seu amor, e nós o louvamos, e o amamos muito. Cartola ignorou a injustiça pois esteve sempre ocupado, com o que tinha no coração.Tinha sabedoria suficiente para saber o quanto estava adiante de seu tempo, o quão importante seria os brasileiros um dia perceberem a mensagem que Espíritos Africanos o designaram para levar a terras distantes.
Hoje em dia, o mundo inteiro percebe. Cartola é a prova da natureza surpreendente do verdadeiro talento. Fez somente o primário e jamais conseguiu se integrar à estrutura de trabalho. Trabalhou sempre com bicos, como pedreiro, pintor de paredes, lavador de carros, vigia de prédios e contínuo de repartição pública. Mas seu dom fez dele o maior sambista carioca de todos os tempos, com letras impecáveis e batidas deliciosas.
Na década de 20, quando os blocos de carnaval resolveram se organizar em sociedades permanentes, Ismael Silva e o pessoal do Estácio criaram uma associação que se autodenominava Escola de Samba, a Deixa Falar. Cartola, então, juntou o pessoal da Mangueira, escolheu o nome Estação Primeira de Mangueira, adotou as cores verde e rosa e também criou sua escola. Nascia assim o maior fenômeno do carnaval carioca. Em seu primeiro desfile na Praça Onze, com o samba enredo de Cartola, Chega de demanda, a Mangueira ganhava também o primeiro prêmio do carnaval.
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Cascatinha e Inhana

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Dupla sertaneja formada por Francisco dos Santos, o Cascatinha (Araraquara SP 20/4/1919-São José do Rio Preto SP 14/3/1996) e Ana Eufrosina da Silva Santos, a Inhana (Araras SP 28/3/1923-São Paulo SP 11/6/1981). Aos 18 anos, Francisco cantava ao violão modinhas, canções e valsas românticas, e tocava bateria. Com a chegada do Circo Nova Iorque a sua cidade, formou dupla com Chopp, artista do circo, usando o pseudônimo de Cascatinha, marca de cerveja, para combinar com o do parceiro.
A dupla tornou-se conhecida em pouco tempo, transformando-se, em 1941, no Trio Esmeralda, quando Francisco se casou com Ana, chegando então a ganhar, no Rio de Janeiro RJ, prêmios no programa César Ladeira, da Rádio Mayrink Veiga, e nos programas de Manuel Barcelos e Papel Carbono, de Renato Murce, da Rádio Nacional.
Em 1942 Chopp separou-se do casal, enquanto a dupla restante ingressava no Circo Estrela-Dalva, excursionando entre o Rio de Janeiro e São Paulo, e passando depois por vários circos e parques de diversões, como o Imperial, onde atuaram durante cinco anos. Em São Paulo, em 1947, atuou na Rádio América.
Em 1950, a dupla foi contratada pela Rádio Record, onde permaneceu 12 anos, estreando em disco na Todamérica em 1951, com Fronteiriça, de Zé Fortuna, compositor preferido de Cascatinha. Nessa época a dupla fez tanto sucesso com as composições de Elpídio Santos Despertar do sertão e Ave Maria do sertão (ambas de parceria com Pádua Moniz), que Cascatinha foi nomeado diretor-artístico da gravadora.
Na Todamérica, em 1952, a dupla lançou um 78 rpm que trazia Índia (Maria Ortiz Guerrero e José Asunción Flores, versão de José Fortuna) e Meu primeiro amor (versão de José Fortuna para Lejanias, de Hermínio Giménez), batendo todos os recordes de vendagem.
Em 1955 participaram do filme de Ademar Gonzaga Carnaval em lá maior, interpretando Meu primeiro amor. Em 1966 a dupla gravou o LP Vinte e cinco anos (RCA-Camden), lançado em 1967, alcançando sucesso com Vinte e cinco anos (Nonô Basílio), O menino do circo (Eli Camargo), Flor do cafezal (Carlos Paraná) e A estrela que surgiu (Zacarias Mourão e Mário Albanesi).
Pela Chantecler lançou, em 1970, o LP Dueto de amor, incluindo os sucessos Amor eterno (Alfredo Borba e Edson Borges), Se tu voltasses (Cascatinha e Carijó), Como te quero (Alberto Conde e Nilza Nunes) e Castigo (Marciano Marques de Oliveira). Dois anos depois gravou com êxito, pela Continental, Olhos tristonhos (Dora Moreno).
No Teatro Alfredo Mesquita, de São Paulo, em 1978, levaram o espetáculo Índia, de grande repercussão, no qual contaram sua trajetória artística. Durante toda a carreira, a dupla percorreu vários Estados brasileiros, atuando em circos, emissoras de rádio e televisão, além de gravar mais de 30 discos. Em 1995 a gravadora Revivendo lançou, em dois CDs, uma coletânea de seus maiores sucessos.
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Cazuza

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cazuza

Foi chamado de poeta, de representante de uma geração de guru dos anos 80. Mas Cazuza foi, na verdade, um tipo de pirata. Estavam presentes nele a audácia de quem abordou o navio da MPB e conheceu os seus tesouros; o romantismo de quem, sob o luar, se embebeda e tece versos, contemplando as paixões; a acidez de uma geração que viu o mundo mudar para um tempo mais duro, menos solidário e mais competitivo.
O pai foi ao cartório registrar seu único filho e ditou para o escrivão: Agenor de Miranda Araújo. Mas, antes que o menino chegasse ao mundo, João Araújo já havia lhe dado outro nome, que o acompanharia por toda a vida. Herdeiro de uma família pernambucana, João Araújo resolvera chamar o filho de Cazuza, um tipo de gíria nordestina para moleque. Ainda durante a gravidez de Lúcia - e sem o ultrassom dos dias de hoje para saber o sexo da criança -, o pai repetia aos amigos: eu vou ter um cazuza. E teve um Agenor, Cazuza, músico e poeta do Brasil.
Além de lhe darem o nome artístico, os personagens da família de Cazuza determinaram seu envolvimento com a música. Ele mesmo gostava de afirmar que sua história musical começou com seu avô, quando, no início do século, ele se mudou de um engenho em Pernambuco para o que era, na época, o areal do Leblon. A partir daí, a história se desenrolou. Seu pai, João Araújo, conheceu uma moça que morava nas imediações, com quem acabou se casando. A moça chamava-se Lúcia e adorava cantar - como Cazuza dizia, cantava como um passarinho. Tanto que uma das primeiras novelas da televisão brasileira teve uma gravação sua na trilha sonora: Peito vazio, de Cartola. Já adulto, Cazuza se lembraria de ouvir a mãe cantarolando pela casa.
Na sua memória fotográfica também ficaram registrados momentos nos pátios e nas comemorações das escolas. Quase sempre lembranças de sua infância, já que, a partir de 11, 12 anos, suas relações com os colégios se tornaram ruins.
Também marcaram as reminiscências do garoto as aparições de artistas em seu lar. Quando ainda era criança, conheceu Elis Regina, os Novos Baianos, Jair Rodrigues, entre outros. Por essa época, durante sua infância, seu pai já estava ligado ao mundo da música e ocupava lugar de destaque na Som Livre, gravadora do grupo Globo. Algum tempo depois, ele se tornaria presidente da empresa.
Porém, a primeira influência que Cazuza recebeu em direção à música veio mesmo de sua mãe. Foi ela quem despertou sua atenção e sua vocação para a arte. E, depois que o filho se transformou no Cazuza ídolo da juventude brasileira do anos 80 e morreu de Aids em 1990, ela levou à frente o projeto da Fundação Cazuza, uma das primeiras entidades civis no Brasil voltada ao apoio a soropositivos. O trabalho de Lúcia é como uma continuação da mensagem de Cazuza aos jovens.
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Celly Campello

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Celly Campello (Célia Campelo Gomes Chacon), cantora, nasceu em São Paulo SP em 18/6/1942. Aos seis anos apresentou-se pela primeira vez na Rádio Cacique, de Taubaté SP, cidade onde se criou. Ainda criança, estudou violão, piano e balé e, aos 12 anos, já tinha programa próprio na Rádio Cacique. Gravou seu primeiro disco (Odeon), aos 15 anos, cantando Handsome boy (Mário Genari Filho e Celeste Novais), a mesma dupla de autores de Forgive me, interpretada por seu irmão, Tony Campello, do outro lado do disco.
Ainda em 1958 estreou na televisão, no programa Campeões do Disco, da TV Tupi, de São Paulo. Durante dois anos, a partir de 1959, apresentou o programa Celly e Tony em Hi-Fi, na TV Record, de São Paulo, e nesse mesmo ano, começou a colecionar prêmios: ganhou o troféu Chico Viola (1959, 1960, 1961, 1962, este em conjunto com Tony Campello), o Roquete Pinto (1959, 1960 e 1961) e o Tupiniquim (1959).
Até 1962, participou de shows e programas de televisão por todo o país. Foi a primeira grande estrela nacional do rock'n'roll, tendo gravado oito LPs, nos quais se destacou com as músicas Estúpido Cupido (Neil Sedaka e H. Greenfield, versão de Fred Jorge), Lacinhos cor de-rosa (Michie Grant, versão de Fred Jorge), Banho de lua (P. de Fillippi e F.Migliacci, versão de Fred Jorge), Túnel do amor (Patty Fischer e Bob Roberts, versão de Fred Jorge), Hei Mama (Paul Anka, versão de Fred Jorge), Broto legal (H. Earnhart, versão de Renato Corte Real) e Billy (Kendis & Pauley e Joey Goodwin, versão de Fred Jorge), gravações feitas de fins de 1958 a 1960.
Participou de dois filmes Jeca Tatu (dirigido por Milton Amaral, 1959) e Zé do Periquito (dirigido por Mazzaropi e Ismar Porto, em 1960) e, em 1962, quando se casou, parou de cantar, só voltando para participar do Festival de Música Popular de Juiz de Fora MG, em 1972, e para uma temporada, em 1975, na série Cuba-libre em Hi-Fi, da boate paulista Igrejinha, onde se apresentou ao lado de outros cantores que fizeram sucesso na sua época, como Tony Campello, Carlos Gonzaga, Ronnie Cord, George Friedman, Baby Santiago e Dan Rockabilly.
Em 1975-1976, seu sucesso Estúpido Cupido serviu de tema e inspiração da telenovela homônima, da TV Globo. Na década de 1970 gravou um LP e vários compactos pela RCA. Faleceu em Campinas (SP), no dia 4 de março de 2003, vitimada por um câncer de mama contra o qual lutava desde 1996.
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Charles Aznavour

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Charles Aznavour,(1924- ), nome artístico do compositor, cantor e ator francês, filho de armênios, Varenagh Aznavourian, considerado em todo o mundo como o embaixador da música francesa.
Estreou na música junto com sua irmã Aida, ao mesmo tempo que no teatro, onde interpretou, desde os 11 anos, diferentes papéis infantis. Seu encontro com Pierre Roche, em 1941, foi decisivo: os dois escreveram canções juntos e as interpretaram em dueto. J´ai bu, cantada por Georges Ulmer, ganhou o Grand Prix em 1947. A dupla atuava, então, abrindo os concertos de Edith Piaf, até que Roche foi para Quebec.
Aznavour escreveu canções para Piaf (Jézébel), Juliette Gréco (Je hais les dimanches) e Eddie Constantine (Et bâiller, et dormir), mas, no início de sua carreira, teve muitas dificuldades para vencer. Mais tarde, soube explorar esse período de sua vida numa canção que refaz o estado de ânimo de um fracassado no mundo da música (Je me voyais déjà).
Sua primeira vitória foi em 1953, quando atuou no Olympia e a canção Sur ma vie fez grande sucesso. Outras composições, como Viens pleurer au creux de mon épaule, Tu te laisses aller, La mamma e Comme ils disent, são um pequeno esboço, um fragmento da vida cotidiana. Além de ter uma capacidade especial de resumir em poucas frases situações comuns a muitas pessoas, Aznavour soube explorar muito bem sua personalidade, sua estatura e sua voz, convertendo os defeitos em virtudes.
Conquistou rapidamente o público norte-americano e, mais tarde, percorreu o mundo com sua música. Paralelamente, manteve a carreira cinematográfica, discreta demais para o seu gosto, revelando-se um ator de talento em filmes como Un taxi pour Tobrouk (1961), de Denys de La Patellière; O tambor (1979), de Volker Schlöndorff; e Os fantasmas do chapeleiro (1982), de Claude Chabrol.
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Chico Buarque

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Chico Buarque

Os bêbados zonzos, dançando trôpegos no meio da rua; os malandros, pobres acabrunhados; os meninos lépidos e tristes, são paisagens da música de Chico, mas são, antes, momentos dos olhos de Chico. Cenas que começaram, desde cedo, a ser impressas em sua alma. Afinal, alguns artistas têm alma branca como papel e nela se pode imprimir quase tudo.
Chico sempre foi da classe média carioca, paulista e, depois, carioca de novo. Suas paisagens são as mesmas de todos nós. Sua música brotou do meio da rua e do meio do povo. As imagens sempre estiveram aí, estampadas na cara do Brasil e alguém, como Francisco, como Chico, saiu a recolhê-las. Trôpego, como todos nós, emocionado, como todos nós, um pouco triste, muito poeta, brasileiro, com todos nós.
No final dos anos 50, havia um ouvido popular que fechava os anos dourados ao som de Frank Sinatra, Bing Crosby e Nat King Cole. Havia também aqueles mais moderninhos que curtiam Elvis Presley e The Platters. Chico estava entre eles, sem abandonar antigos sucessos de velhos sambistas como Noel Rosa, Ataulfo Alves e Ismael Silva. Mas, para o ouvido de Chico, o rock que nascia pareceu velho quando ele ouviu a voz e a bossa nova de João Gilberto na composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
Chico Buarque não sabia, mas aquela música influenciaria os rumos de sua futura vida artística. Aquela música misturava o molejo do morro e uma certa sofisticação do jazz. Era a contribuição brasileira para a modernidade da música. Era a criatividade do Brasil mostrando novos caminhos. Era Chico ouvindo até vinte vezes por dia Chega de saudade na casa da rua Buri. Era o Brasil de Juscelino Kubistchek, de Brasília, de Oscar Niemeyer, da delicadeza do homem cordial.
E foi essa mistura que lhe aguçou a vista e lhe abriu a alma. Foi essa mistura que o foi transformando no Chico brasileiro, capaz de reunir a poesia ao futebol, a feijoada à música, a solidariedade ao bom humor. Assim, 1965 viu nascerem os sessenta versos de Pedro pedreiro.
O estudante de arquitetura da FAU já tinha algum prestígio no mundo da música de São Paulo. Ele gravara seu primeiro compacto com Pedro Pedreiro. Os sambas tocados no Juão Sebastião Bar, no Quitanda e no Sambafo já haviam Ihe garantido participação na efervescência musical daquela geração. Assim, também em 1965, Chico era convidado por Roberto Freire, diretor do TUCA, a musicar Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto. Era a segunda encomenda que Chico recebia e, como em todas as outras que viriam depois, deixou tudo para a última hora. Na Véspera do dia da entrega das músicas de Morte e Vida Severina, ele se trancou numa sala da casa da rua Buri para realizar, nervoso, o trabalho.
Apesar de o Brasil já estar sob as botas da ditadura, a televisão era ainda incipiente e a juventude da época respirava música brasileira, teatro brasileiro, literatura brasileira e cinema brasileiro. Morte e Vida foi um sucesso. Foi excursionar na Europa, onde ganhou o festival de teatro universitário de Nancy, na França. O cenário intelectual e artístico brasileiro - especialmente na música - rumava para uma fase de grande criatividade e qualidade, uma fase que acabou tendo como símbolo os festivais de música. Carlos Drummond de Andrade disse, em 1966, que o Brasil andava precisando de amor e que era isso que a marchinha, "tão antiga em sua tradição lírica", nos havia dado. O poeta falava de A banda, que acabava de ser uma das ganhadoras do II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. No mesmo ano de 66, Chico gravava seu primeiro LP e se tornava uma celebridade em várias partes do país e no exterior.
Mas o regime endurecia e esse endurecimento forçava aqueles que participavam do mundo da produção cultural a tomar posições. Em 67, as ruas brasileiras começavam a sentir melhor o estremecimento provocado pelos tanques e pelas botinas dos militares no poder. Por outro lado, a oposição amordaçada se dividia. A esquerda começava a se fragmentar em posições radicais e em posições que ainda acreditavam numa negociação. Assim acontecia também com a música. Caetano Veloso e Gilberto Gil encabeçavam o Tropicalismo que, segundo o próprio Caetano, queria fazer uma exploração estética também do que é feio, enquanto o Chico preferiu ficar com o que é bonito. Num país que ainda não havia entrado de vez na era da televisão, a música mostrava-se o catalisador do pensamento nacional.
Em 1968 a peça Roda Viva começou a ser encenada. Teve vida curta. O recrudescimento do regime e as organizações de direita se encarregariam de tirá-la dos palcos. Em São Paulo, a Universidade Mackenzie, na rua Maria Antônia, em frente à USP era um dos centros do temido CCC - Comando de Caça aos Comunistas. Uma organização que recrutava seus membros entre os jovens menos politizados (e geralmente mais ricos) e organizava ações violentas contra quem eles chamavam de comunistas ou inimigos do regime. Um desses alvos foi a peça de Chico.
No dia 17 de julho, um dos grupos do CCC invadiu o Teatro Galpão, em São Paulo. Os cenários foram destruídos e os atores espancados. A medida que o regime dos generais endurecia, seus seguidores iam mostrando as unhas. Do outro lado, a oposição cavava subterrâneos, nos quais muitos se perderiam na clandestinidade imposta pelo AI-5, de 13 de dezembro de 1968. Era o início de um longo processo que culminaria, muitos anos depois, num ouvido popular diferente.
A música de Chico, de Tom Jobim, de Vinicius e Toquinho, de Edu Lobo, de Carlos Lyra, de Caetano Veloso, de Gilberto Gil começava, lentamente, a escapar do popular. A música de Chico continuaria a ter como paisagem o bêbado, o malandro, o pivete, a prostituta, o que se alimenta de luz, mas os ouvidos desses mesmos personagens começavam, lentamente, a deixar de ouvir. A essas alturas, o Brasil delicado, do final dos anos 50 e do começo dos anos 60, começava a deixar de existir.
Antes mesmo do AI-5, a música de Chico não conseguia escapar do rótulo de alienada. Em julho de 68, Bom Tempo ficou em segundo lugar na Bienal do Samba, que foi vencida por Baden Powell, com Lapinha. Bom Tempo foi vaiada e criticada, pois falava de dias claros quando o horizonte brasileiro se escurecia. Em setembro foi pior. Na final do Festival Internacional da Canção, se enfrentaram Sabiá, de Chico e Tom, e Prá não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. A música de Chico e Tom recebeu a maior vaia da história dos festivais, mas ainda assim foi escolhida vencedora. Naquele momento, a música de Vandré já se tornara hino da oposição e Sabiá parecia uma música mais de nostalgia, saudosista.
O tempo, no entanto, mostrou que Tom e Chico haviam sido premonitórios. Poucos anos mais tarde, a saudade e as imagens de casa de Sabiá eram o hino do exílio a que foram obrigados inúmeros brasileiros, Chico inclusive.
Quando o AI-5 ganhou as ruas, o povo perdeu a praça. Para Chico foram cinco dias de angústia. Até que no dia 18 de dezembro ele acordou com os militares já forçando a porta de seu apartamento. No dia 3 de janeiro de 1969, ele e Marieta embarcavam para Cannes, na França, onde aconteceria o Midem, a grande feira da indústria fonográfica. De lá, os dois seguiram para a Itália, onde Chico era aguardado com grande ansiedade.
A gravadora tinha uma estratégia para colocá-lo no circuito internacional. Uma estratégia que acabou naufragando. Chico gravou um disco, misturando faixas de seus dois LP's brasileiros, que não deu em nada. Mas, ainda assim, não faltavam convites para aparições na TV e Chico chegou a ter um programa de rádio. Porém, sua popularidade caiu rapidamente. A novidade de um cantor brasileiro já não chamava a atenção e o trabalho foi se tornando escasso. Por outro lado, a mão de ferro da ditadura impedia sua volta ao Brasil. Antes mesmo de sua viagem, no dia 27 de dezembro de 68, Caetano e Gil haviam sido presos. E até aquele momento, já no final de janeiro, continuavam detidos, com as cabeças raspadas. O jeito foi ficar. A primeira filha do casal, Sílvia, acabou nascendo em solo italiano, em 28 de março de 69.
Havia a impossibilidade de voltar ao Brasil. Mas havia, também, a vontade de voltar ao Brasil. E ele acabou retornando, no início de 1970. Não sem antes ouvir o conselho de Vinicius: volte fazendo barulho. O aeroporto do Galeão presenciou a chegada de Marieta, Sílvia e Chico, que regressava ao país a bordo de um grande esquema de divulgação, com especial na TV Globo e apresentação na boate Sucata, além do lançamento de um novo LP o Chico Buarque n° 4.
Mas, o Brasil que recebeu Chico já não era o mesmo que o vira sair. No poder, a ditadura impunha seu general mais duro, Emílio Garrastazu Médici. Nos quartéis, a tortura aumentava em ritmo e requintes. Nas ruas, uma mistura de pão e circo levava os brasileiros a andarem em fusquinhas com adesivos "Ame-o ou deixe-o", festejando o milagre brasileiro. Na produção cultural, estava instituída a censura prévia. E a música de Chico Apesar de você passou pela censura.
Em 1971, foi lançada Construção. Chico dava tons concretos à realidade dura dos brasileiros das classes mais populares. Construção deveria incomodar a censura, mas passou. A história do brasileiro trabalhador, flagrado em sua pequenez, flagrado em seu sufoco diante das grandes estruturas de poder que se formavam no começo dos anos 70, flagrado em sua impossibilidade de ação. Chico mostrava os tons cinza e negro do pão e circo.
Sem querer, Chico se transformava no símbolo de luta contra a ditadura, título que lhe dificultou muito a vida em relação aos censores. Suas músicas passaram a ser sistematicamente proibidas. Foi assim com Minha história, com Tanto mar, com Atrás da porta e com Cálice. Foi assim com Calabar, uma peça de teatro, um projeto seu e de Ruy Guerra, que a ditadura proibiu sem maiores explicações, deixando um prejuízo de 30 mil dólares investidos na época.
Chico percebeu que nada que levasse seu nome passaria incólume pelos censores. Foi aí que nasceu Julinho da Adelaide, um personagem que Chico criou para tentar fugir à marcação dos censores. Julinho compôs três músicas: Acorda amor, Jorge Maravilha e Milagre Brasileiro. Julinho morreu em 75, depois que uma matéria do Jornal do Brasil desmascarou a verdadeira identidade do sambista. Por esse tempo, a figura de Chico estava muito politizada. Ele diz que, nessa época, era mais aplaudido quando entrava no palco para cantar do que quando saía. Em 75, Chico decidiu se afastar das apresentações. Ficou nove anos longe e sua volta foi, como ele mesmo diz, num "meio-show" com Toquinho, em Buenos Aires, em 84.
No final da década de 70, João Batista Figueiredo era o general da vez e a crise do petróleo fazia caírem por terra as ilusões do milagre brasileiro. A ditadura perdia a única justificativa possível: o crescimento econômico. Os generais preparavam sua saída e anunciavam a anistia aos exilados. Chico constatava a existência de um Brasil diferente. Muitas casas não tinham sequer fogão, mas tinham um aparelho de TV. Era um país cujo ensino foi ficando de lado e cuja classe média começava a se mediocrizar em frente à televisão. Foi no final dos anos 70 que surgiu Bye bye Brasil, mais um trabalho de encomenda, para o fìlme de Carlos Diegues.
Os anos 80 começavam e Chico comprou um terreno no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, e inaugurou o famoso campinho de futebol onde, até hoje, realiza torneios e mostra as habilidades de centroavante no time do Politheama. A década de 80 marcou, também, a volta de Chico a programas da Rede Globo. Ele e a emissora tiveram vários problemas durante a década de 70.
Ainda nos anos 60, Chico deveria apresentar um programa com Norma Bengell, o Shell em Show Maior, mas, confirmando a fama de não levar muito jeito para o vídeo, só apareceu no primeiro dia de gravação. A Globo decidiu processá-lo por quebra de contrato. A situação só se resolveu com a interferência de Walter Clark, então superintendente da emissora. Ele propôs uma troca: Chico faria uma música para o II Festival Internacional da Canção, de 67, e a emissora retiraria o processo. Chico, de má vontade, criou Carolina. Finalmente, depois desse longo desentendimento, em 86, Chico fez seu programa na Globo, em parceria com Caetano: era o Chico e Caetano, levado ao ar uma vez por mês.
O país vivia ainda a ressaca da campanha das diretas de 84 e estava mergulhado numa profunda crise econômica, a pobreza das cidades aumentava e a música se tornava, cada vez mais, um fenômeno ligado quase exclusivamente à mídia de televisão. Foi de 83 um dos últimos grandes sucessos de Chico: Vai passar. O país já alcançava a marca de 120 milhões de habitantes, mas o crescimento não se refletia nas vendagens de boa parte da MPB. Já no final da década de 80, Chico ratifica sua postura ideológica e dá seu apoio à candidatura de Luiz Ignácio Lula da Silva, nas primeiras eleições diretas para presidente, depois de quase trinta anos de presidentes escolhidos indiretamente.
Os anos 90 começaram e o popular, de alguma maneira, já havia perdido a dimensão de Chico e de boa parte daqueles que fizeram a MPB dos anos 60 e 70: eles viraram música apenas para uma parte da classe média. Em meados dos anos 90, o Brasil ainda é um país indeciso entre o asséptico e o plástico de Miami e a sujeira e a lama das favelas e dos conflitos de terra. O mesmo tema de 65, em Morte e Vida Severina, continua vivo no final do século.
A posse da terra leva fazendeiros a contratar mortes e leva os sem-terra a organizar um movimento que propõe invasões. Os conflitos se acirram e o ano de 96 vem encontrar Chico mais uma vez envolvido com o popular. Ele prepara um álbum com músicas que falam desse movimento e cede os direitos autorais aos sem-terra. O ouvido popular mudou sua sintonia, mas o compositor continuou lá, popular, brasileiro.
Músicas Cifradas de Chico
Veja também:
fontes: MPB Compositores - Editora Globo; Cifrantiga - História da MPB e Cifras.
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Chico Feitosa

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Chico Feitosa (Francisco Libório Feitosa), compositor, instrumentista e cantor, nasceu no Rio de Janeiro RJ em 1/1/1935. Conheceu Ronaldo Bôscoli, seu futuro parceiro, em 1956, e no ano seguinte foi assistente de Vinícius de Moraes na montagem da peça Orfeu da Conceição.

Foi então morar em Ipanema e em 1958 teve sua primeira música gravada por Norma Benguel, Sente (com Ronaldo Boscoli), lançada no LP Oh Norma!, da Odeon. Nesse mesmo ano, teve outra composição sua gravada pelo Coral Ouro Preto, Fim de noite, música que fez muito sucesso e que lhe valeu o apelido Chico Fim de Noite.

Em 1959, foi trabalhar na revista Sétimo céu e a partir de então participou da maioria dos shows de bossa nova, culminando com o Festival da Bossa Nova realizado em 1962, no Carnegie Hall, em New York, E.U.A., onde cantou Passarinho (com Marcos Vasconcelos). Nesse mesmo ano, sua música O amor que acabou (com Luís Fernando Freire), foi gravada mo primeiro disco do Tamba Trio. Em 1956 foi uma das principais atrações do show Reação, encenado no Teatro Princesa Isabel, pelo produtor e compositor Roberto Jorge.

Em 1966, gravou pela Forma o LP Chico fim de Noite apresenta Chico Feitosa. Até 1968, viveu só de música popular, montando, nesse ano, uma pequena empresa produtora de jingles. Sua música Ye-me-lê (com Luís Carlos Vinhas), foi gravada por Sérgio Mendes no LP do mesmo nome, em 1970.

Veja também:

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