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domingo, 12 de agosto de 2007

Já é demais

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Já é demais - 1930 (Sinhô)
Já é demais!
Meu bem, já é demais!
Deves dar fim a este modo de pensar
Basta de queixumes e ciúmes
Eu já notei que tu queres me acabar

Será que a santa de minha devoção
Abandonou o meu pobre coração?
Na tristonha solidão da futura traição
Da dor de uma paixão
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Jura

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"Jura" é o maior sucesso de Sinhô. Bem representativo da última e melhor fase do compositor, mostra algumas características marcantes de seu estilo, como a repetição de palavras no início do estribilho- "Jura, jura, jura..." -, com orações que trausbordam de um verso para outro, e o decantado pernosticismo, presente, mais uma vez, na atrevida imagem do "beijo puro da catedral do amor". Tudo isso sobre um fraseado musical simples, original, ao mesmo tempo alegre e sentimental, entrecortado de síncopes, uma herança do maxixe.

Lançado por Araci Cortes na revista Microlândia, reprisado em Miss Brasil, e gravado simultâneamente por Araci e Mário Reis, em fins de 1928, "Jura" foi uma das músicas mais cantadas no Brasíl nos anos seguintes. O jornalista Jota Efegê (João Ferreira Gomes), que assistiu a estréia de "Jura" no teatro, relembrou o fato em interessante artigo publicado em O Jornal, muitos anos depois. Conta Efegê que a platéia exigiu a repetição do número várias vezes, tendo Sinhô subido ao palco onde, abraçado a Araci, recebeu do público verdadeira consagração, Detalhe pitoresco ressaltado pelo jornalista foi a maneira como o espanhol Antônio Rada, maestro do espetáculo, "conduzia a orquestra, dançando e fazendo vibrar uma espécie de chocalho, comunicando aos músicos seu allegro molto vivo".

Jura - 1928 - José Barbosa da Silva (Sinhô)----clique para ouvir amostra da música

A6 ---Bm6 --E7(9)------- A6 ----------------E/B
Jura, jura, jura pelo Senhor / Jura pela imagem
---------------B7 --------E7/B------------- E7
Da Santa Cruz do Redentor / Pra ter valor a tua...

A6---- Bm6--E7(9) -------A6--- A7
Jura, jura, jura de coração / Para que um dia
----------------D -------Dm7 A ---------------E7--------- A
Eu possa dar-te o amor / -----Sem mais pensar na ilusão

-----------E7----------- A ------------Bm7------ E7--------- A
Daí então dar-te eu irei / O beijo puro da catedral do amor
-------------------E7------------------ A
Dos sonhos meus / Bem junto aos teus
------------Bm7---------- E7------ A
Para fugirmos das aflições da dor
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Gosto que me enrosco

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Gosto que me enrosco - 1928 - Sinhô---clique para ouvir amostra da música

---G -------------D7------------- G
Não se deve amar sem ser amado
-----------------------------Am
É melhor morrer crucificado!
---------------B7--------------------------- Em
Deus nos livre das mulheres de hoje em dia
----------------------A7
Desprezam um homem
-----------------------D7
Só por causa da or - gia!

---Am----------------- D7----------- G
Gosto que me enrosco de ouvir dizer
------G7--------------------------- C
Que a parte mais fraca é a mulher
-------------Cm------------------- G
Mas o homem com toda a fortaleza
---------E7------- Am--------- D7----- G
Desce da nobreza e faz o que ela quer!

----G-------------- D7----------- G
Dizem que a mulher é parte fraca ...
------------------------------------Am
Nisto é que eu não posso acreditar
-------------B7------------------- Em
Entre beijos, e abraços e carinhos ...
----------------------A7
O homem não tendo
------------------------D7
É bem capaz de roubar (Estrib.)
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Cansei

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No ano de 1929, Sinhô, em São Paulo, participa da campanha eleitoral de Júlio Prestes e se apresenta no Teatro Municipal, onde mostra a nova composição Cansei:

Cansei - 1929 - (José Barbosa da Silva - Sinhô) (clique música)

Cansei, cansei / Cansei de te querer
Pois fui de plaga em plaga / O ale do além
Numa esperança vaga / E eu pude compreender
Por que cansei / Cansei de padecer
Pois lá ouvi de Deus / A Sua voz dizer
Que eu não vim ao mundo
Somente com o fito eterno de sofrer

Quis assim a sorte evitar a dor
Deste que te quis como todo o seu calor
Numa verdadeira fonte de valor
Que jamais se inspira nesse amor
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Sabiá

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Sabiá - 1928 - Sinhô--- clique para ouvir amostra da música
Sabiá, sabiá cantou na mata / e anunciou chiu, chiu
No melhor de minha vida / meu amor fugiu

Procurei me aproximar / do sabiá encantador
Sentindo o meu pisar / fez tal qual o meu amor
Quem roubou o meu sossego / a Deus eu fiz entregar
Ainda hei de ver um dia / alguém por mim se vingar

Papagaio, maitaca / piriquito, sabiá
quando cantam faz saudade / dos carinhos de Iaiá
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Não quero saber mais dela

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Não quero saber mais dela - 1927 -Sinhô---clique para ouvir amostra da música

Por que foi que tu deixaste / Nossa casa na favela
Não quero saber mais dela / Não quero saber mais dela

A casa que eu te dei / Tem uma porta e uma janela
Também não quero saber mais dela
Também não quero saber mais dela

Português, tu não me invoca / Me arrespeita, eu sou donzela
Não vou na sua potoca / Nem vou morar na favela

Eu bem sei que tu és donzela / Mas isto é uma coisa à toa
Mulata, lá na favela / Mora muita gente boa

Aquela crioulinha / Que tu dava tanto nela
Não quero saber mais dela / Não quero saber mais dela

E aquela portuguesa / Que tu te casou com ela
Também não quero saber mais dela
Também não quero saber mais dela
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Deus nos livre dos castigos das mulheres

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Deus nos livre dos castigos das mulheres - 1928 - Sinhô-clique para ouvir amostra da música


Deus criador / Fez da mulher o seu divino resplendor
Só por ser a parte fraca / Deu-lhe o poder de convencer
(Este sexo mau que deve padecer)

E sofrer / Pela razão de se julgar superior
Quando conseguem, preso o amor
Fazem do mesmo uma peteca (sem ser)
Só pra ver a mulher padecer

Mas o amor é uma prece / Que o homem desconhece
E só procura conhecer / Quando do mesmo mal
Venha a sofrer

Eis a razão que eu sempre peço / A Jesus pra me livrar
Dos castigos da mulher / Que um dia os olhos meus
Venham a gostar
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Amar a uma só mulher

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Em "Amar a Uma Só Mulher" Sinhô faz a apologia da fidelidade no amor, virtude que jamais praticou. E o faz na forma de sempre, com versos pitorescos, impregnados de um lirismo simplório, bem característico de seu estilo: "Quem pintou o amor foi um ceguinho / mas não disse a cor que ele tem / penso que só Deus dizer-nos vem ensinando com carinho / a pura cor do querer bem..."
Dedicado ao poeta Álvaro Moreira, cuja casa em Copacabana era freqüentada por Sinhô, este samba foi lançado na revista Língua de Sogra, em janeiro de 28, ao mesmo tempo em que era gravado por Francisco Alves. "Amar a Uma Só Mulher" assemelha-se nos compassos iniciais à canção "La vie en rose". Mas, se plágio existe no caso, é de Pierre Louiguy, autor da melodia francesa, composta dezesseis anos depois da morte de Sinhô.
Amar a uma só mulher – 1927 - Sinhô--- clique para ouvir amostra da música

Amar a uma só mulher
deixando as outras todas sempre em vão
Pois a uma só a gente quer
com todo fervor do coração

Quem pintou o amor foi um ceguinho
mas não disse a cor que ele tem
Penso que só Deus dizer-nos vem
ensinando com carinho
a pura cor do querer bem

Quem pintou o amor foi bem querido
Decorou também a ingratidão
e deixou rascunhos da paixão
como lema preferido
a uma só no coração
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A favela vai abaixo

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Contratado pelo prefeito Prado Júnior, o urbanista Alfred Agache elaborou, em 1927, um extenso plano de remodelação da cidade do Rio de Janeiro, que incluía a demolição do morro da Favela, situado próximo da zona portuária. Muito discutido pela imprensa, o projeto inspiraria o samba "A Favela Vai Abaixo", no qual Sinhô protestava contra a ameaça de desabrigo dos moradores: "Minha cabrocha, a Favela vai abaixo / quanta saudade tu terás deste torrão / (...) / vê agora a ingratidão da humanidade / (...) / impondo o desabrigo ao nosso povo da Favela".
Contava o poeta Luís Peixoto que o compositor, valendo-se de sua popularidade, chegou a pedir a um ministro de estado sua intercessão junto ao prefeito para que a demolição não se realizasse. Sendo uma das melhores melodias de Sinhô, "A Favela Vai Abaixo" foi destaque numa revista teatral de nome idêntico.
Contrastando com a pesada versão original de Francisco Alves, a composição ganhou uma graça especial, bem mais fiel ao estilo do autor, na gravação realizada por Mário Reis, em 1951 (álbum de três discos sobre Sinhô, com preciosos arranjos de Radamés Gnattali). Isso leva a crer que, na dupla formada pelos dois cantores, nos idos de trinta, foi benéfica a influência de Mário sobre Chico, ajudando-o a se desfazer do ranço operístico, incompatível com a interpretação de sambas como este.
A favela vai abaixo – 1927 - Sinhô ---clique para ouvir amostra da música

Minha cabocla, a Favela vai abaixo
Quanta saudade tu terás deste torrão
Da casinha pequenina de madeira
que nos enche de carinho o coração

Que saudades ao nos lembrarmos das promessas
que fizemos constantemente na capela
Pra que Deus nunca deixe de olhar
por nós da malandragem e pelo morro da Favela
Vê agora a ingratidão da humanidade
O poder da flor sumítica, amarela
quem sem brilho vive pela cidade
impondo o desabrigo ao nosso povo da Favela

Minha cabocla, a Favela vai abaixo
Ajunta os troço, vamo embora pro Bangú
Buraco Quente, adeus pra sempre meu Buraco
Eu só te esqueço no buraco do Caju

Isto deve ser despeito dessa gente
porque o samba não se passa para ela
Porque lá o luar é diferente
Não é como o luar que se vê desta Favela
No Estácio, Querosene ou no Salgueiro
meu mulato não te espero na janela
Vou morar na Cidade Nova
pra voltar meu coração para o morro da Favela
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Papagaio no poleiro

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Papagaio no poleiro (samba / carnaval - 1926) - J. B. da Silva (Sinhô)

Ai amor! / Ai amor! / Os teus carinhos
Tem meiguice de uma flor

O amor é muito bom / Enquanto a gente tem dinheiro
Se findar esta moeda / Tem papagaio no poleiro

No barraco da saudade / Fui morar com meu benzinho
A moeda se acabou / Eu fiquei falando sozinho
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Amor sem dinheiro

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Amor sem dinheiro (maxixe - 1926) - J. B. da Silva (Sinhô)

Amor, Amor / Amor sem dinheiro
Meu bem / Não tem valor

Amor sem dinheiro / É fogo de palha
É casa sem dono / Que mora a canalha

Amor sem dinheiro / É fole sem vento
É fruta passada / Chorar sem lamento

Amor sem dinheiro / É flor que murchou
São quadras sem rimas / Me leva que eu vou
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terça-feira, 7 de agosto de 2007

Pé de anjo

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Sinhô apreciava tanto a valsa francesa "Geny (C'Est Pas Dificile)" que acabou plagiando-a na marchinha "O Pé de Anjo". E deu certo, pois "O Pé de Anjo" caiu nas graças do povo, tornando-se o maior sucesso do carnaval de 1920 e até originando uma revista musical que adotou o seu título.
Foi, ainda, a primeira música gravada por Francisco Alves, sendo lançada juntamente com "Fala meu Louro" no suplemento inaugural do selo Popular, de efêmera duração. Quanto ao título, tratava-se de uma zombaria aos pés enormes do China, dando assim continuidade à interminável rixa entre Sinhô e seus desafetos preferidos: os irmãos China e Pixinguinha.
O pé de anjo (Sinhô)---- clique para ouvir amostra da música

C----------------- Dm- --------------------- C/E
Eu tenho uma tesourinha / Que corta ouro e marfim
C--------------------- G------D7------------------ G7
Serve também para cortar / Línguas que falam de mim

C------------ Dm---------------- G7----- C
Ó pé de anjo, ó pé de anjo / És rezador, és rezador
A7------------------- Dm------------------------ D7
Tens um pé tão grande / Que és capaz de pisar
G7------------- C
Nosso Senhor, Nosso Senhor

C------- C#º-------Dm------------------------ C/E
A mulher e a galinha / São dois bichos interesseiros
C----- ----------- G------- D7-------------- G7
A galinha pelo milho / E a mulher pelo dinheiro.

Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34
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Fala meu Louro

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Uma sátira à derrota de Rui Barbosa na eleição presidencial de 1919 em que obteve menos da metade dos votos do vencedor, Epitácio Pessoa -, "Fala Meu Louro" é o melhor samba da fase inicial de Sinhô. Mas a letra referindo-se à terra de Rui ( "A Bahia não dá mais coco / pra botar na tapioca..." e ao súbito mutismo do conselheiro, sempre tão falante ( "Papagaio louro / do bico dourado / tu falavas tanto / qual a razão que vives calado..."), acabou por irritar os baianos ligados ao samba, que se julgaram atingidos.
Assim, o revide foi imediato através de "Entregue o Samba aos Seus Donos", composição de Hilário Jovino Ferreira, que já havia alfinetado Sinhô no ano anterior com "Não És Tão Falado Assim". Só que agora Mestre Hilário partia para o ataque direto, acusando-o de plagiário. Naturalmente nada impede, e é até provável, que ao fazer "Fala Meu Louro"', Sinhô tenha pretendido provocar ao mesmo tempo Rui e os baianos liderados por Jovino, um pernambucano criado em Salvador.
Fala meu Louro - 1919 (Sinhô)-----clique para ouvir amostra da música

A Bahia não dá mais coco
para botar na tapioca
Pra fazer o bom mingau
para embrulhar o carioca

Papagaio louro do bico dourado
Tu falavas tanto
qual a razão que vives calado

Não tenhas medo
coco de respeito
Quem quer se fazer não pode
Quem é bom já nasce feito
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Quem são eles?

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A carreira de Sinhô começa já com um sucesso, o samba "Quem São Eles", cantado no carnaval de 1918. Com seus versos pitorescos ( "A Bahia é boa terra / ela lá e eu aqui..."), o samba era dedicado a um bloco homônimo, ligado ao Clube dos Fenianos. Como os ânimos no meio musical continuassem agitados com a polêmica do Pelo telefone, o título Quem são eles? acabou sendo tomado como uma provocação pelos adversários de Sinhô, causando nova polêmica. Proposital ou não, esta provocação apenas prenunciava outras tantas que se sucederiam na vida do irrequieto sambista, ajudando-o em sua permanente busca de promoção.

"Quem São Eles" já revela o talento rítmico de Sinhô especialmente no habilidoso uso das síncopes naturais na letra, independentemente da música, presente nos "que" dos versos "Não era assim que meu bem chorava" e "Não precisa pedir que eu vou dar". No entanto, seu estilo como compositor só iria se definir a partir de 1920.


Quem são eles? - 1918 (Sinhô)

A Bahia é terra boa / Ela lá e eu aqui - Yayá
Ai, ai, ai / Não era assim que meu bem chorava
Não precisa pedir eu que eu vou dar
Dinheiro não tenho mas vou roubar
Carreiro olha a canga do boi / Carreiro olha a canga do boi
Toma cuidado que o luar já se foi
Ai que o luar já se foi / Ai que o luar já se foi
O castelo é coisa a toa / Entretanto isso não tira - Yayá
Ai, ai, ai / É lá que a brisa respira
Não precisa pedir que eu vou dar
Dinheiro não tenho mas vou roubar
Quem são eles? / Quem são eles?
Diga lá e não se avexe - Yayá
Ai, ai, ai / São peixinhos de escabeche
Não precisa pedir que eu vou dar
O resto do caso pra que cantar
O melhor do luar já se foi / O melhor do luar já se foi
Entre menina que aqui estão de horror
Ai, que aqui estão de horror / Ai, que aqui estão de horror
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quinta-feira, 5 de julho de 2007

Sinhô

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Vaidoso, talentoso, falador, charmoso, conquistador, plagiário, pianista, brigão, amigo de ricos e miseráveis, pioneiro dos direitos autorais, fixador do samba carioca, compositor de enorme talento. Reunindo tudo isso na figura que Pixinguinha descreveu como "alto, magro, feio e desdentado", Sinhô colocou a coroa em sua cabeça antes que alguém o fizesse. Ele era o traço mais expressivo ligando os poetas, os artistas, a sociedade fina e culta às camadas profundas da ralé urbana. Daí a fascinação que despertava em toda gente quando levado a um salão.

A definição, o retrato traçado em crônica, não poderia ser mais bem acabado e ter mais competente autor. Quando da morte de Sinhô, dele se ocupou Manuel Bandeira, descrevendo seu velório em detalhes que a um poeta não escapariam: “A capelinha branca era muito exígua para conter todos quantos queriam bem ao Sinhô, tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rende-vous baratos, meretrizes, chauffeurs, todos os sambistas de fama, os pretinhos dos choros dos botequins das ruas Júlio do Carmo e Benedito Hipólito (principais ruas do Mangue, a zona do meretrício carioca), mulheres dos morros, baianas de tabuleiro, vendedores de modinhas... As flores estão num botequim em frente, prolongamento da câmara-ardente. Bebe-se desbragadamente. Um vai-vem incessante da capela para o botequim”.


Bandeira, que por coincidência conhecera Sinhô em outro velório, o do boêmio e amigo de ambos, José do Patrocínio Filho, sabia muito de quem falava. Desde o primeiro encontro encantou-se com a figura “descarnada, lívida, um frangalho de gente, mas sempre fagueiro, vivaz, agilíssimo, dir-se-ia um moribundo galvanizado provisoriamente para uma farra”. Reconhecia nele o primeiro compositor a entender que o samba seria a expressão musical da cidade do Rio de Janeiro e ele o seu fixador, o consolidador do trabalho de popularização e profissionalismo iniciado por Donga. Sem maiores luzes intelectuais ou mesmo musicais, Sinhô sempre foi um instintivo iluminado.

Desde cedo avesso ao trabalho, percebeu que teria de tirar seu sustento, da família e das muitas mulheres que cruzaram sua vida, do talento que lhe sobrava e que permitiria fazer da música sua única - e agradável - fonte de renda.

Depois de viúvo e com filhos para criar, dívidas para pagar, tratou de fazer de seu piano a solução que jamais viria pois seria eterno boêmio, mudando de casa, fugindo de credores com a mesma constância com que compunha êxitos cada vez mais populares. Durante o dia fazia plantão junto ao piano da Casa Beethoven, onde executava partituras para possíveis clientes, e à noite podia ser visto nos mais diferentes lugares, tocando em prostíbulos, nas grandes sociedades (Clube dos Democráticos, dos Fenianos, Tenentes do Diabo etc.), em acampamentos ciganos nos subúrbios, no salão da Kananga do Japão, conhecido clube de dança, nas barracas da Festa da Penha ou nas reuniões musicais da casa de Tia Ciata.

Foi essa inquietude, somada à enorme vaidade, que o meteram em sua primeira grande polêmica musical, envolvendo os freqüentadores da casa da “tia” baiana. Sinhô desentendeu-se com China, irmão de Pixinguinha, e atacou logo o grupo inteiro, incluindo, além dos dois, Hilário Jovino e Donga como os baianos de Quem são eles? (A Bahia é boa terra/ela lá e eu aqui...). A resposta foi um samba dos irmãos, desancando o brigão com Já te digo (...ele é alto, magro e feio/ e desdentado/ele fala do mundo inteiro/e já vive avacalhado/no Rio de Janeiro).

Não ficaria por aí a mania de arrumar confusão, que acompanharia o compositor durante toda a sua vida. Pouco depois lança Pé de anjo com grande sucesso e volta a brigar com Hilário Jovino, que se apresenta como o verdadeiro autor da música. Desentende-se com Caninha por causa de um concurso na Festa da Penha e para não ser surrado por Heitor dos Prazeres — altamente respeitado no meio da malandragem — desaparece de circulação por algum tempo. Em 1927, Francisco Alves gravou Ora vejam só, assinada por Sinhô, enquanto Heitor, garantindo ser o autor, parte em busca do outro. Encurralado, Sinhô pronuncia a frase que ficou histórica: “Esse samba eu peguei no ar, Heitor. E samba é como passarinho. É de quem pegar”.

Talvez por não respeitar a propriedade alheia, foi que Sinhô tratou de proteger a sua. E dele a primeira manifestação de exigência de reconhecimento autoral de que se tem notícia no Brasil e feita de maneira simples e direta. As partituras de suas composições levavam um carimbo que as identificavam como suas, e os selos dos discos, com suas músicas, eram por ele rubricados. Revelando uma faceta muito à frente de seu tempo, pagava para que músicos, que tocavam em festas ou bailes, executassem quase exclusivamente músicas de sua autoria.

Já era famoso em meados dos anos 20 - e para isso contribuíra o entusiasmo dos reis da Bélgica, que em visita ao Brasil se encantaram com sua composição Fala meu louro, pedindo para ouvi-la repetidas vezes - e suas músicas eram ouvidas em todas as camadas sociais. Esse aspecto, destacado por Manuel Bandeira e já focalizado, fazia dele uma figura ímpar no Rio de Janeiro de então, transitando com sua música com a mesma desenvoltura nos mais refinados palacetes e nas mais miseráveis favelas.
Uma pequena biografia

José Barbosa da Silva ou Sinhô nasceu em 8 de setembro de 1888, no Rio de Janeiro, Sinhô - a origem do apelido é desconhecida -, mulato, filho do mestre pintor (profissional especializado em reproduzir imagens em paredes) Ernesto Barbosa da Silva. Um apaixonado pelos grupos de choro que esperava ver o filho transformado em grande músico. Mas, com 17 anos, Sinhô já está casado com Henriqueta, de 16 anos, a primeira de uma série de mulheres a se render ao charme do nada bonito mas talentosíssimo futuro músico e compositor e flautista. Enviúva aos 26 anos, pai de três filhos, já famoso por mudar constantemente de casa por não pagar aluguel e fugir de credores, passando a viver do piano que já tocava; e também começa a compor.
Apresenta-se onde pode conseguir dinheiro. É visto no clube Kananga do Japão, mas não rejeita ofertas de bailes, ranchos e casas suspeitas. Seu emprego mais fixo é o de pianista de plantão em lojas de instrumentos musicais e partituras, onde testa pianos e interpreta partituras para possíveis compradores. Na Casa Beethoven conhece outra pianista, e sua vida muda ao se tornarem amantes. Cecília se encarrega de passar para a pauta as primeiras composições de Sinhô e de ser a divulgadora de sua obra para os clientes da loja.
É na Casa Beethoven que burila o samba Quem são eles?, provocando Pixinguinha e sua turma. É seu primeiro sucesso, cantado no Carnaval de 1918 e ponto de partida para a carreira de compositor. Extremamente vaidoso e com grande capacidade de se auto-promover, torna-se conhecido no Rio de Janeiro, freqüentando todas as rodas, com amigos marginais, intelectuais, boêmios ou milionários.
A perspicácia leva-o a proteger suas obras, criando um carimbo que identifica cada partitura vendida e rubricando os discos gravados com suas músicas. O cuidado que tem com sua produção não o impede de desrespeitar o trabalho alheio, e por se apropriar de temas de outros, passou a vida inteira brigando. Foram seus adversários principalmente os compositores Heitor dos Prazeres - de quem esconde a parceria - e Caninha, com quem troca farpas musicais, briga que acaba por render a quadrinha de Assobro, cronista da época: "Dois cabras perigosos /dois diabos infernais /José Barbosa da Silva / José Luiz de Morais".
Famoso nos anos 20, suas músicas ganham sucesso no teatro de revista, um dos grandes lançadores de compositores e cantores na época. A vedete Araci Cortes faz de Sinhô um de seus autores favoritos e suas músicas ajudam cantores como Francisco Alves e Carmen Miranda a avançarem em suas carreiras.
Conquistador reconhecido, cercado de mulheres, acaba por viver com Nair, sua última companheira. Freqüentador de reuniões intelectuais na casa do escritor Álvaro Moreira, não deixa de ser assíduo nos terreiros de macumba. Seu amigo José do Patrocínio Filho tenta fazer uma festa para coroá-lo Rei do Samba, e não consegue, mas Sinhô adota a realeza para sempre.
Em 1929, em São Paulo, participa da campanha eleitoral de Júlio Prestes e se apresenta no Teatro Municipal, onde mostra a nova composição Cansei. Volta ao Rio e Mário Reis faz grande sucesso com seu Jura. Sinhô está no auge. Mas, a tuberculose. à qual não dá atenção desde meados dos anos 20, cobra seu preço. No dia 4 de agosto de 1930, viajando na barca Sétima, da Ilha do Governador para o Rio, sofre forte hemoptise. O Rei do Samba chega ao velho Cais Pharoux, já morto.
Algumas músicas, letras e cifras:

Obra completa

Achou ruim, faz meio dia, sambinha, 1923; Alegrias de caboclo, canção, 1928; Alivia estes olhos, samba, 1920 ou 1921; Alta madrugada - Adão na ronda, cena cômica, 1930; Amar a uma só mulher, samba, 1927; Amor de poeta, samba-canção, 1930; Amor sem dinheiro, samba, 1926; Amostra à mão, samba, 1930; Ave de rapina, samba, 1930; Bem-te-quero, samba, 1927; Bem- te-vi, canção, 1928; Bem-te-vi, samba carnavalesco, 1927; Benzinho, choro-canção, 1927; O bobalhão, charleston carnavalesco, 1927; Burucuntum, samba, 1930; Cabeça de promessa, marcha, 1924; Cabeça é ás, samba, 1926; Cabeça inchada, marcha, 1923; Cada um por sua vez, sambinha, 1920; Cais dourado, toada, 1929; Canção roceira (Casinha de sapé), samba, 1920; Caneca de couro, samba, 1924; Canjiquinha quente, 1930; Cansei, samba-canção, 1929; Capinheiro (ou Capineiro), coco ajongado, 1929; Carga de burro, samba, 1928; Carinhos de vovô, romance, 1928; Cassino maxixe, maxixe, 1927; Cauã, valsa, 1929; Chequerê, choro, 1929; A cocaína, canção-tango, 1923; Como se gosta, valsa, 1929; Confessa, meu bem, samba, 1919; Confissão, canção, 1927; Confissões de amor, choro-modinha, 1930; Corta a saia (É lá), samba, 1926; Custe o que custar, samba, 1922; Dá nele, samba, 1930; Deixe deste costume, samba, 1919; Deus nos livre do castigo das mulheres, samba, 1928; Dor de cabeça, samba, 1924; Entre nós, samba, 1924; Eu ouço falar (Seu Julinho), samba, 1929; Eu queria saber, samba, 1929; Fala baixo, marcha, 1921; Fala, meu louro, samba, 1919; Fala, macacada, samba-toada, 1930; Falando sozinho, samba, 1927; A favela vai abaixo, samba, 1927; Feitiço gorado, samba, 1930; Força e luz (c/C. Castro), marcha, 1926; Gosto que me enrosco (c/Heitor dos Prazeres), samba, 1928; A guitarra, 1922; Hip! Hurra, marcha, 1924; Já é demais, samba-canção, 1930; Já...já..., samba, 1924; Jura, samba, 1928;Ajuriti, marcha, 1925; Kananga do Japão, polca-choro, 1918 ou 1919; A maçã proibida (c/Bastos Tigre), maxixe, s.d.; Macumba gegê, samba, 1923; Mal de amor, samba canção, 1931; Maldito costume, samba, 1929; A medida do Senhor do Bonfim, samba, 1929; Meus ciúmes, choro-canção, 1931; Miçanga, marcha, 1930; Mil e uma trapalhadas (c/Wilson Batista), s.d.; Minha branca, samba, 1929; Minha paixão, marcha, 1923; Mosca vareja (c/Durval Silva), marcha, 1927; Não posso me amofinar, samba, s.d.; Não quebra mais, marcha, 1927; Não quero saber mais dela, samba, 1927; Não sou baú, samba, 1929; Nossa Senhora do Brasil, dueto, 1929; Ó Rosa, marcha-chula, 1926; Ora vejam só, samba, 1927; O pé de anjo, marcha, 1919; Pé de pilão, marcha, 1922; Pega rapaz, samba-choro, 1926; Por que será ?, marcha, 1930; Professor de violão, samba, s.d.; Quando come se lambuza, samba, 1923; Que vale a nota sem o carinho da mulher?, 1928; Quem fala de mim tem paixão, samba, 1926; Quem são eles?, samba, 1918; Ratos de raça, samba, 1929; Recordar é viver, canção, 1930; Reminiscências do passado, samba-canção, 1930, Sabiá, canção, 1928; Sai da raia, marcha, 1922; Salve-se quem puder, samba, 1930, Segura o boi (De boca em boca), samba, 1929; Sem amor, marcha, 1930; Sempre voando, samba, 1927; Si meu amô me vê, samba, 1930, Só por amizade, samba, 1919; Sonho de gaúcho, canção, 1927; Sou da fandanga, marcha carnavalesca, 1930; Super-ale (c/Ernesto Silva), samba, 1928; Tem papagaio no poleiro, samba, 1926; Tesourinha, samba, 1927; Trabalhando o retrato, samba, 1918; Vida apertada, marcha-batuque, 1923; Virou bola, samba, 1929; Viruta y chicharrón, tango, 1919; Viva a Penha, samba, 1930; Volta à palhoça, samba, 1927; Vou me benzer, samba, 1919 ou 1920.

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora; História do Samba - Editora Globo.

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