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segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Luar do sertão

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A toada "Luar do Sertão" é um dos maiores sucessos de nossa música popular em todos os tempos. Fácil de cantar, está na memória de cada brasileiro, até dos que não se interessam por música. Como a maioria das canções que fazem apologia da vida campestre, encanta principalmente pela ingenuidade dos versos e simplicidade da melodia. Embora tenha defendido com veemência pela vida afora sua condição de autor único de "Luar do Sertão", Catulo da Paixão Cearense deve ser apenas o autor da letra.

A melodia seria de João Pernambuco ou, mais provavelmente, de um anônimo, tratando-se assim de um tema folclórico - o côco "É do Maitá" ou "Meu Engenho é do Humaitá" -, recolhido e modificado pelo violonista. Este côco integrava seu repertório e teria sido por ele transmitido a Catulo, como tantos outros temas. Pelo menos, isso é o que se deduz dos depoimentos de personalidades como Heitor Villa-Lobos, Mozart de Araújo, Sílvio Salema e Benjamin de Oliveira, publicados por Almirante no livro No tempo de Noel Rosa.
Há ainda a favor da versão do aproveitamento de tema popular, uma declaração do próprio Catulo (em entrevista a Joel Silveira) que diz: "Compus o Luar do Sertão ouvindo uma melodia antiga (...) cujo estribilho era assim: 'É do Maitá! É do Maitá"'. A propósito, conta o historiador Ary Vasconcelos (em Panorama da música popular brasileira na belle époque) que teve a oportunidade de ouvir "Luperce Miranda tocar ao bandolim duas versões do 'É do Maitá': a original e 'outra modificada por João Pernambuco', esta realmente muito parecida com Luar do sertão".
Homem humilde, quase analfabeto, sem muita noção do que representavam os direitos de uma música célebre, João Pernambuco teve dois defensores ilustres - Heitor Villa-Lobos e Henrique Foreis Domingues, o Almirante - que, se não conseguiram o reconhecimento judicial de sua condição de autor de Luar do Sertão, pelo menos deram credibilidade à reivindicação. Ainda do mesmo Almirante foi a iniciativa de tornar o Luar do Sertão prefixo musical da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a partir de 1939.


Luar do Sertão----------- clique para ouvir amostra da música


--------G ----------Em -------Am --------D7-------- G----- D7
Não há, ó gente, oh não luar / Como este do sertão (bis)

--------------G------- Em------------ Am--------------------------- D7
Oh que saudade do luar da minha terra / Lá na serra branquejando
------------------------G D7------- G--------- Em---------- Am
Folhas secas pelo chão / Esse luar cá da cidade, tão escuro
--------------------------D7------------------- G------- D7
Não tem aquela saudade / Do luar lá do sertão (refrão)

--------------G --------Em ---------Am--------------------------- D7
A gente fria desta terra sem poesia / Não se importa com esta lua
-----------------------G D7------------- G--------- Em------- Am
Nem faz caso do luar / Enquanto a onça, lá na verde capoeira
------------------------D7-------------------- G------ D7
Leva uma hora inteira, / Vendo a lua a meditar (refrão)

-----------------G--------------- Em---------- Am
Ai, quem me dera que eu morresse lá na serra
------------------------D7---------------------- G------- D7
Abraçado à minha terra e dormindo de uma vez
-------------G------------- Em --------Am
Ser enterrado numa grota pequenina
------------------------D7 ----------------G -------D7
Onde à tarde a surunina chora sua viuvez (refrão).
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Caboca de Caxangá

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Em entrevista a Joel Silveira, nos idos de 1940, Catulo da Paixão Cearense declarou-se "um sertanejo do sertão", ressaltando o mérito de saber descrevê-lo muito bem, apesar de não conhecê-lo. Parte desse mérito ele deveria creditar ao violonista João Pernambuco (João Teixeira Guimarães), com quem conviveu por diversos anos e que lhe forneceu, além de alguns temas musicais, um variado vocabulário sertanejo que usaria em seus versos. Um exemplo dessa colaboração é a composição "Caboca de Caxangá", que entrou para a história assinada apenas pelo poeta.

Inspirado numa toada que João lhe mostrara e que teria melodia do violonista, composta sobre versos populares, Catulo escreveu extensa letra, impregnada de nomes de árvores (taquara, oiticica, imbiruçu...), animais (urutau, coivara, jaçanã...), localidades (Jatobá, Cariri, Caxangá, Jaboatão...) e gírias do sertão nordestino, daí nascendo em 1913 a embolada Caboca de Caxangá, classificada no disco como batuque sertanejo. E nasceu para o sucesso, que se estenderia ao carnaval de 1914, para desgosto de Catulo, que achava depreciativo o uso da composição pelos foliões.

Caboca di Caxangá - Catulo da Paixão Cearense--- clique para ouvir amostra da música


E------------------- C7------------------ Fm
Laurindo Punga, Chico Dunga, Zé Vicente
-------------------------B7----------------------E
E esta gente tão valente / Do sertão de Jatobá,
-----------------------C7----------- Fm
E o danado do afamado Zeca Lima,
--------------------------B7-------------------------E
Tudo chora numa prima, / E tudo quer te traquejá.

---------------------B7------------------------E
Caboca di Caxangá, / Minha caboca, vem cá.

------------E---------- C7-------------- Fm
Queria ver se essa gente também sente
-----------------------------B7
Tanto amor, como eu senti,
----------------------------E
Quando eu te vi em Cariri!
-----------------------C7----------- Fm
Atravessava um regato no quartau
-----------------------B7------------------------- E
E escutava lá no mato / O canto triste do urutau.

------------------------B7---------------------------E
Caboca, demônio mau, / Sou triste como o urutau!

E------------------- C7---------------------- Fm
Há muito tempo, lá nas moita das taquara,
-----------------------------B7--------------------------E
Junto ao monte das coivara, / Eu não te vejo tu passá!
------------------C7-------------- Fm
Todo os dia, inté a boca da noite,
------------------------B7----------------------E
Eu te canto uma toada / Lá debaixo do indaiá.

-------------------------B7----------------------E
Vem cá, caboca, vem cá, / Rainha di Caxangá.

E------------------ C7------------------ Fm
Na noite santa do Natal na encruzilhada,
--------------------------B7--------------------------E
Eu te esperei e descantei / Inté o romper da manhã!
--------------------------C7------------ Fm
Quando eu saía do arraiá, o sol nascia
-------------------------B7-------------------E
E lá na grota já se ouvia / Pipiando a jaçanã.

------------------------B7--------------------------E
Caboca, flor da manhã / Sou triste como a acauã!
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Flor do mal

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O poeta Domingos Correia suicidou-se no dia 6 de maio de 1912, bebendo um copo do desinfetante Lisol, numa casa de chope no Rio de Janeiro. Antes, porém, perpetuou nos versos da canção "Flor do Mal" o motivo do suicídio: sua paixão não correspondida por Arminda Santos, uma jovem pernambucana que então iniciava carreira artística nos palcos da cidade.
"Oh! Eu me recordo ainda / desse fatal dia / em que tu me disseste, Arminda, / indiferente e fria / eis do meu romance o fim...". Como não era compositor, fez esses versos tristíssimos em cima da melodia, mais triste ainda, de "Saudade Eterna", uma valsa do violonista Santos Coelho, autor de um método de guitarra portuguesa, muito usado na época.
Tendo recebido em 1909 a letra de Catulo da Paixão Cearense (sob o título de "Ó como a saudade dorme num luar de calma"). "Saudade Eterna" era apenas razoavelmente conhecida, tornando-se grande sucesso ao transformar-se em "Flor do Mal", talvez até pelo impacto da tragédia.
Segundo o historiador Ary Vasconcelos (em Panorama da música popular brasileira na belle époque), Domingos Correia "era branco, baixo e tinha uma. cabeça enorme", o que lhe valeu o apelido de Boneco nos meios boêmios onde "bebia e cantava com voz possante". Com tal figura, era mesmo tarefa impossível ao Boneco conquistar a bela Arminda.
Flor do mal (Saudade eterna)------- clique para ouvir amostra da música
valsa - 1912 - Domingos Correia / Santos Coelho
Oh ! Eu me recordo ainda, / Deste fatal dia... / Em que tu me disseste, Arminda, / Indiferente e fria.
- Eis do meu romance o fim! / - Senhor! / - Basta! / - Esquece-te de mim, / Amor.
Por que? / Não procures indagar, / A causa ou a razão?
Por que? / Eu não te posso amar? / Oh ! Nunca quis não, / Será fácil te esquecer. / Prometo, / Oh! minha flor, / Não mais ouvir falar de amor.
Eu! / Hipócrita! / Fingido coração! / De granito... / Ou de gelo... / Maldição...
Ah! / Espírito satânico! / Perverso! / Titânico chacal... / Do mal... / Num lodaçal imerso...
Sofrer! / Quanto tenho sofrido! / Sem ter uma consolação! / O Cristo também foi traído! / Por que? / Não posso ser então... / Oh, Não !
Que importa, / O meu sofrer ferino... / Das coisas é ordem natural! / Seguindo o meu destino, / Chamar-te-ei, eternamente, / A Flor do Mal.
Sofrer! / Quanto tenho sofrido! / Sem ter uma consolação! / O Cristo também foi traído! / Por que? / Não posso ser então... / Oh, Não!
Que importa, / O meu sofrer ferino... / Das coisas é ordem natural! / Seguindo o meu destino, / Chamar-te-ei, eternamente, / A Flor do Mal....
Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34
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sábado, 4 de agosto de 2007

Ontem ao luar (Choro e poesia)

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Ontem ao luar Por sua semelhança com a canção "Love Story", do filme homônimo, a polca "Choro e Poesia" voltou a ser sucesso na década de 1970. Esse retorno rendeu-lhe mais de dez gravações, só que com um detalhe: todas traziam apenas o título "Ontem ao Luar", que recebeu de Catulo da Paixão Cearense quando, em 1913, o poeta lhe pôs uma letra, à revelia do autor. E o que é pior, várias dessas gravações tal como edições da partitura, somente registravam o nome de Catulo, omitindo o de Pedro de Alcântara.
Em 1976, graças aos esforços de uma neta de Alcântara, sua autoria foi restabelecida através de uma decisão judicial. "Choro e Poesia" tem duas partes, ambas construídas com variações de um mesmo motivo, usado com muita engenhosidade especialmente na segunda parte, em tom maior.
Ontem ao Luar (Choro e Poesia) (1907)--- clique para ouvir amostra da música
- Catulo da Paixão Cearense e Pedro de Alcântara

----Am-------------------------- B7
Ontem ao luar / Nós dois em plena solidão
E7
Tu me perguntaste
-----------------Am
O que era a dor de uma paixão
A7 -------------------Dm
Nada respondi, calmo assim fiquei
B7 -----------------------------------(E7)
Mas fitando o azul / Do azul do céu a lua azul
-------------Am---------------------------- B7
Eu te mostrei, mostrando a ti os olhos meus
------------------------E7--------------- Am
Correr sem ti uma nívea lágrima e assim te respondi
A7----------------- Dm-------------------- Am
Fiquei a sorrir por ter o prazer de ver a lágrima
---(B7)-- (E7)--- Am--- E7
Dos olhos a sofrer

A--------------------- B7
A dor da paixão, não tem explicação
E7------------------ A
Como definir o que só sei sentir
Dm ------------A ------------Gbm
É mister sofrer, para se saber
---------------Bm------ E7 ------A -----E7
O que no peito o coração não quer dizer
A---------------------- B7
Pergunta ao luar, travesso e tão taful
E7 -----------------------A
De noite a chorar na onda toda azul
-------Dm-------------- A-------- Gbm
Pergunta ao luar, do mar a canção
--------------B7------- E7---------- (A) (E7) (A) (E7)
Qual o mistério que há na dor de uma paixão
-----A----------- Gb7------------ Bm
Se tu desejas saber o que é o amor e sentir
----------E7------------------ A------------ Dbm7
O seu calor o amaríssimo travor do seu dulçor
------------------ E7
Sobe o monte a beira mar ao luar
------------E7-------- A
Ouve a onda sobre a areia lacrimar
--------------A------Gb7------ Bm------------------ E7
Ouve o silêncio a falar na solidão do calado coração
----------------A -----------A7
A pena a derramar os prantos seus
D ----------Dm -----A -----------Gb7------- Bm
Ouve o choro perenal / A dor silente universal
-------------E7---------------- A F A
E a dor maior que é a dor de Deus

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora Publifolha e A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34
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Iara (Rasga o coração)

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"Melodia espontânea e escorreita; harmonização singela com alguns acordes arpejados, principalmente no tempo fraco dos compassos." Assim o maestro Batista Siqueira analisa o xote "Iara", por ele considerado "uma obra prima de beleza e simplicidade".
Composto por volta de 1896, em homenagem a um barco homônimo, campeão de regatas, "Iara" só seria gravada em 1907, ano da morte de seu autor Anacleto de Medeiros. Tempos depois, quando já era peça obrigatória no repertório de bandas, recebeu letra de Catulo que a rebatizou de "Rasga o Coração".
Essencialmente instrumental, o xote perdeu em graça e leveza ao ser transformado em canção, embora os versos de Catulo tenham-lhe aumentado a popularidade. Esses versos, aliás, são tão numerosos que mereceram de Guimarães Martins (no livro Modinhas) a curiosa e acaciana recomendação: "O cantor que não desejar interpretar todas estas estrofes escolherá as que mais lhe agradarem". Admirador de Anacleto de Medeiros, Villa-Lobos aproveitou o tema de "Iara" em seu Choros n° 20.
Iara - Rasga o Coração----- clique para ouvir amostra da música
(letra de Catulo da Paixão Cearense e música de Anacleto Medeiros)
Se tu queres ver a imensidão, / Do céu e mar,
Refletindo a prismatização / Da luz solar,
Rasga o coração, / Vem te debruçar,
Sobre a vastidão, / Do meu penar,
Rasga, o que hás de ver, / Lá dentro a dor, a soluçar,
Sob o peso de uma cruz, de lágrimas chorar,
Anjos a cantar, Preces que dirás,
Deus a ritmar, seus pobres ais,
Sorve todo olor, que anda a recender,
Veras que espinhosas, florações do meu sofrer,
Vê se podes ler, nas suas pulsações,
As brancas ilusões, que eu releguei, no seu gemer,
O que não pode é te dizer, nas palpitações,
Ouve-o, brandamente, docemente, a palpitar,
A se for por tal, num terno vesperal,
Mais puro que uma grande,
A se ouvir um hino, só de flores a cantar,
Sob um mar de pétalas de dores, ao luar,
Doido a te chamar, penso em te esperar,
Na ânsia de te ver, ou de morrer,
Tens o meu perdão, flor me vem abrir,
Este coração, na primavera desta dor,
Ao reflorir, mas ao sorrir, Nos rubros lábios teus,
Terás minha paixão, sorrindo, / Adeus !
Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34
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Clélia (Ao desfraldar da vela)

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Clélia (Ao desfraldar da vela) - valsa - 1907 ----clique para ouvir amostra da música
- Catulo da Paixão Cearense e Luís de Souza
Clélia adeus! / Adeus, minha doce Clélia adeus! / Desce à praia e vem calmar o verde mar / Que em breve irei sulcar além / Clélia, ó vem! / Adeus, vou me separar de ti / Vem. Ó vem meu bem! / Vem ouvir-me aqui
Vou singrar a vastidão do mar / A imensidão do mar, do mar / Vou cantar a minha dor / Sob este céu primaveril / Clélia, adeus! / Que o céu é todo puro anil, gentil / Beija a lua o verde mar / Na areia a se enrolar

Ai, que lancinante é o meu sofrer! / Ai, pensar em nunca mais te ver! / Ó, são horas de partir meus ais! / A vela a desfraldar / Pede um sorrir, um teu olhar / Ó vem, ó minha Clélia, adeus! / Vai meu coração em chaga / De vaga em vaga / À solidão do mar clamar
Clélia adeus! / Adeus, vem dizer-me o eterno adeus! / Desce à praia e vem calmar o verde mar / Que em breve irei sulcar além / Vem, ó vem! / Por Deus, vem me dar um beijo aqui / Vem, ó vem, Clélia meu bem! / Vem meu ouvir aqui
Fonte: Cifrantiga - História da MPB e Cifras
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Três estrelinhas (O que tu és)

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Três estrelinhas (O que tu és) - polca - 1906-----clique para ouvir amostra da música
- Catulo da Paixão Cearense e Anacleto de Medeiros

Se um riso vem / Teus lábios colorir de almo rubor / As almas a teus pés / Vêm prosternar-se com ardor / A luz transluz nos céus / Nos céus dos olhos teus / Saudosos como o luar / No mar a cintilar

Tua alma cheira mais / Que um alvo jasmineiro todo em flor / Onde tu passas fica um aroma a soluçar / Tu és de Deus a obra-prima / Não tens par! / És uma rima singular

Tu és a pérola ideal / Que o mar gerou / Tu és a flor mais aromal / Que Deus sonhou / A mais plangente e meiga lira sons não tira / Como as notas desse teu falar

Teus seios têm o sacro / E doce aroma de um missal / Teus lábios têm a eterna / Sensação da extrema-unção / Tu fazes sem pensar os astros palpitar / Tu fazes sem querer as almas padecer

Tuas tranças cheiram mais / Que as rosas trescalantes de um rosal ; Que a madrugada vem de orvalho perolar / És uma flor da fonte à margem / De cristal / És um poema divinal!

És a mais sonora estrofe do Senhor / És a irradiação mais branca do luar / És a luz solar / Um hino sideral! / Nos olhos tens os raios / De uma estrela vesperal

Nos lábios tens a graça / Inebriante de hidromel / Da imagem do perdão / Tu és a cópia mais fiel / Tu és um coração de orvalho lá do céu / Que um anjo a chorar verteu

Fonte: Cifrantiga - História da MPB e Cifras
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Os olhos dela

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Os olhos dela (chótis - 1906) -----clique para ouvir amostra da música
Eu sou capaz de confessar / Aos pés de Deus / Que eu nunca vi em mundo algum / Uns olhos como os teus! / Eu não sei mesmo / Como os hei de comparar, não sei / Eu já tentei cantar / O teu divino olhar
Depois de tanto versejar / Debalde em vão / Depois de tanto apoquentar / A minha inspiração / Cheguei à triste conclusão / De que eu só sei sofrer / E o que teus olhos são / Não sei dizer
Deixa-te estar que quando eu morrer / Irei verter os prantos meus nos céus / Hei de contar em segredo a Deus / As travessuras desses olhos teus / Hei de mostrar ao Senhor Jesus / Ao Pai nos céus, apiedado / Meu coração crucificado / Nos braços teus de luz
Os olhos teus são lágrimas do amor / Os olhos teus são dois suspiros de uma flor / São dois soluços d’alma / São dois cupidos de poesia / Que sinfonia tem o teu olhar / Que até às vezes já nos faz chorar! / Ai, quem me dera me apagar assim / À luz do teu olhar!
Os olhos teus / Quando nos querem castigar / Parecem dois astros de gelo / Que nos vêm gelar / Mas quando querem nos ferir / Direito o coração / Eu não te digo não / O que os teus olhos são
Pois quando o mundo quiser / De vez findar / Basta acendê-lo com um raio / Desse teu olhar / Que os olhos todos das mulheres / Que mais lindas são / Dos olhos teus / Não têm a irradiação
Fonte: Cifrantiga - História da MPB e Cifras.
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Terna saudade (Por um beijo)

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Muita música instrumental de sucesso recebeu letra de Catulo da Paixão Cearense, que assim se fez parceiro de grandes compositores de sua geração. Entre estes está Anacleto de Medeiros, autor da valsa "Terna Saudade", que o poeta transformou na pomposa canção "Por um Beijo": "Ó ri, meu doce amor / sofri lágrimas de flor / teu sorriso inspira a lira / que afinei por teu falar..."
Embora o melhor de "Terna Saudade" seja a melodia, seu autor é citado pelo jornalista Guimarães Martins, no livro Modinhas, como "colaborador de Catulo na parte musical". Herdeiro dos direitos do poeta, Martins procurava sempre minimizar o trabalho de seus parceiros, tachando-os de meros colaboradores.
Terna saudade (Por um beijo) - valsa - 1905--- clique para ouvir amostra da música
(Anacleto de Medeiros / Catulo da Paixão Cearense)
Ó ri, meu doce amor, / Sofri lágrimas de flor / Teu sorriso inspira / A lira que afinei por teu falar / E quer de amor vibrar / Ao sol de teu olhar / Ri meu doce amor / Sorri, pérola da flor / Abre em teu lábio um sorriso / Onde um coração diviso, / De algum anjo que desceu do azul.
Num teu sorriso / Luz de poesia / Vem dar a melodia / E musicar os versos meus / Que eu mostrarei a Deus, / Como eu te amo, / Alma dileta / E sem eu ser poeta / Irei fazer o eterno / Te aclamar nos céus.
Irei estrelas lá no céu roubar / Trarei da lua, um raio de luar / Depois dos céus eu descerei ao mar / E a pérola mais bela irei buscar / Sem recear as iras do Senhor, irei, / Roubar os cofres do Senhor / Trarei a essência do divino amor / Se tu, velada no mais vasto véu, / Concederes-me a vitória / A suprema gloria, / De um só beijo teu !
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Talento e formosura

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A obra mais famosa de Edmundo Otávio Ferreira, foi o chótis Talento e formosura, que recebeu versos de Catulo da Paixão Cearense, sendo gravado, entre outros, pela Banda da Casa Edson e pela Banda do Corpo de Bombeiros, na Odeon; pelos cantores João Barros e Mário Pinheiro, já com versos de Catulo, na Victor Record e pelo Grupo Lulu o Cavaquinho, na Columbia, todas no início do século XX.

Em 1977, Talento e formosura foi regravada por Paulo Tapajós na série "Cantares brasileiros - vol. 1 - a modinha", distribuído pela Companhia Internacional de Seguros como brinde de Natal.

Talento e Formosura (modinha - 1905)
Tu podes bem / Guardar os dons da formosura / Que o tempo um dia / Há de implacável trucidar / Tu podes bem / Viver ufana da ventura / Que a natureza / Cegamente quis te dar

Prossegue embora / Em flóreas sendas sempre ovante / De glórias cheia / No teu sólio triunfante / Que antes que a morte / Vibre em ti funéreo golpe seu / A natureza irá roubando / O que te deu

E quanto a mim / Irei cantando o meu ideal de amor / Que é sempre novo / No viçor da primavera / Na lira austera / Em que o Senhor me fez tão destro / Será meu estro / Só do que for imortal

Terei mais glória / Em conquistar com sentimento / Pensantes almas / De varões de alto saber / E com amor / E com pujança de talento / Fazer um bardo / Ternas lágrimas verter

Isto é mais nobre / É mais sublime e edificante / Do que vencer / Um coração ignorante / Porque a beleza é só matéria / E nada mais traduz / Mas o talento é só espírito / E só luz

Descantarei na minha lira / As obras-primas do Criador / O mago olor da flor / Desabrochando à luz do luar / O incenso d’água / Que nos olhos faz / A mágoa rutilar / Nuns olhos onde o amor / Tem seu altar

E o verde mar que se debruça / N’alva areia a espumejar / E a noite que soluça / E faz a lua soluçar / E a Estrela Dalva / E a Estrela Vésper languescente / Bastam somente / Para os bardos inspirar

Mas quando a morte / Conduzir-te à sepultura / O teu supremo orgulho / Em pó reduzirá / E após a morte / Profanar-te a formosura / Dos teus encantos / Mais ninguém se lembrará

Mas quando Deus / Fechar meus olhos sonhadores / Serei lembrado / Pelos bardos trovadores / Que os versos meus hão de na lira / Em magos tons gemer / Eu morto embora / Nas canções hei de viver

Fonte: Cifrantiga
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quinta-feira, 5 de julho de 2007

Catulo, o poeta popular do Brasil

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Catulo da Paixão Cearense foi um dos poucos, talvez o único, poeta popular no Brasil que, em vida, recebeu todas as glórias, todas as honras e uma adoração popular tão grande. Isso porque usou e abusou de toda a sonoridade que o sotaque nordestino lhe proporcionou, soube colocar em versos simples onde era o lugar de por versos simples. Tinha faro. Sabia ouvir, como ninguém mais, o rumor da terra.
Pequena biografia de Catulo

O cancioneiro de Catulo, com letras que exprimem a ingenuidade e pureza do caboclo, cativou a sensibilidade do povo e levou Mário de Andrade a classificar o autor como "o maior criador de imagens da poesia brasileira". Catulo da Paixão Cearense nasceu em São Luís MA, em data que suscita dúvidas: alguns pesquisadores indicam 8 de outubro de 1883, enquanto outros, como Mozart Araújo, afirmam ser 31 de janeiro de 1888. Morreu no Rio, em 10 de maio de 1946. Aos dez anos foi com a família para o sertão do Ceará. Em 1880, com os pais e dois irmãos, mudou-se para o Rio de Janeiro, indo residir na Rua São Clemente, 37, onde o pai se estabeleceu como relojoeiro.
Freqüentou repúblicas de estudantes e conheceu o flautista Viriato, Anacleto de Medeiros, Quincas Laranjeiras, o cantor Cadete e outros chorões da época, além de um estudante de medicina que o iniciou no violão. Nessa época, tocou flauta. Com a morte dos pais no final da década de 1880, trabalhou na administração do cais do Porto como contínuo e depois como estivador.
Matriculou-se no Colégio Teles de Meneses, onde estudou português, matemática e francês, chegando a traduzir poetas famosos, como Alphonse de Lamartine (1790-1869) e outros. Fundou um colégio no bairro da Piedade, passando a lecionar línguas. Integrado nos meios boêmios da cidade, acercou-se do livreiro Pedro da Silva Quaresma, proprietário da Livraria do Povo, na Rua São José, 65-67, que passou a editar em folhetos de cordel o repertório mais em voga de modinhas, lundus e cançonetas da época. Para essa livraria organizou coletâneas, entre estas O Cantor Fluminense, O Cancioneiro Popular, logo seguidas de suas próprias obras, como O Cantor fluminense, Lira dos salões, Novos cantares, Lira brasileira, Canções da madrugada, Trovas e canções, Choros ao violão. É o responsável também pela reabilitação do violão nos salões da alta sociedade.
Poeta antes de tudo, mas com bem timbrada voz de barítono, celebrizou-se pela dicção impecável com que cantava os poemas que adaptava à melodia de obras dos mais famosos compositores populares da época. Através de gravações feitas por Mário Pinheiro, Eduardo das Neves, Cadete, Vicente Celestino e outros cantores, as modinhas com seus versos espalharam-se pelo país inteiro e realizaram, por assim dizer a consagração definitiva do poeta. Nos livros editados por Quaresma & Cia., encontram-se, com a indicação do nome dos autores das músicas, dezenas de poemas de sua autoria, que se converteram em autênticos sucessos nacionais. Citem-se, ainda, as toadas que lhe foram transmitidas por João Pernambuco como seu parceiro, estilizou e pôs letra em canções que se transformaram em grandes sucessos, como Caboca de Caxangá, Ontem ao luar e Luar do sertão, esta uma das mais célebres canções populares do Brasil. Publicou as obras, muitas vezes reeditadas, Meu sertão, Rio de Janeiro, 1918; Sertão em flor, Rio de Janeiro, 1919; Poemas bravios, Rio de Janeiro, 1921; Mata iluminada, Rio de Janeiro, s.d.; Meu Brasil, Rio de Janeiro, 1928; Um boêmio no céu, Rio de Janeiro, s.d.; Alma do sertão, Rio de Janeiro, 1928.
Perfil

O tempo reconhece e perpetua. Assim foi com Catulo da Paixão Cearense, homem de muitos inimigos e adorado pelo povo. Inimigos porque desfiavam dele um rosário de mal versão que ia do vaidoso, passando pelo mulherengo, até chegar ao cabotino. Adorado por ter sido um dos poucos, talvez o único, poeta popular no Brasil que, em vida, recebeu todas as glórias, todas as honras e uma adoração popular tão grande.
Isso porque Catulo usou e abusou de toda a sonoridade que o sotaque nordestino lhe proporcionou, soube colocar em versos simples onde era o lugar de por versos simples. Tinha faro. Sabia ouvir, como ninguém mais, o rumor da terra. Catulo da Paixão Cearense era maranhense de São Luís, onde nasceu em 8 de outubro de 1863 em um sobrado de frente azulejada na antiga rua Grande, número 66, hoje rua Oswaldo Cruz.

Alguns de seus biógrafos dão como data do seu nascimento 31 de janeiro de 1866, mas por equívoco: essa data foi arranjada para uma nomeação no serviço público, pois ele precisava remoçar três anos para conseguir a nomeação. Ainda menino, Catulo, com 10 anos, mudou-se com o pai, o ourives e relojoeiro Amâncio José da Paixão Cearense, a mãe, Maria Celestina Braga da Paixão e os irmãos para o sertão do Ceará. Esse tempo que ficou no Ceará deixaria marcas profundas que, posteriormente, se converteriam em poesias e canções de rara beleza e de apurado trabalho de registro da língua brasileira, isto é, aquela escrita do jeito que se fala e que serviria de inspiração para o tema de sua mais conhecida peça: Luar do Sertão. Aliás, essa melodia, gravada nos primeiros anos deste século, época em que a indústria fonográfica engatinhava, custou alguns problemas ao seu autor: apesar de Catulo negar sempre, existe a possibilidade de que a melodia tenha sido adaptada pelo violonista João Pernambuco a partir de um tema folclórico nordestino. Mas, fato é que esta canção, composta originalmente com 10 estrofes com rimas emparelhadas, recebeu, além de inúmeras outras gravações nos mais diversos estilos, a consagração popular, a ponto de ter sido chamada de segundo hino nacional.

Em 1880, com 17 anos de idade, sua família mudou para o Rio de Janeiro que começava a substituir Salvador como principal cidade brasileira. Nessa nova cidade, a família foi morar na rua São Clemente, numa casa quase igual à de São Luiz, três portas no térreo, três janelas em cima, com sacadas. Ali mesmo funcionava a joalheria e a ourivesaria de seu pai. O poeta adotou a cidade e criou problemas com o pai. Por essa época Catulo tocava flauta e travou conhecimento com algumas pessoas que moravam numa república na rua Barroso, em Copacabana. Essas pessoas eram Antônio Calado e Viriato, flautistas, Anacleto de Medeiros e Quincas Laranjeiras, que, exímio violonista, ensinou Catulo tocar violão. Daí para a boemia e as serenatas foi um pulo. É também dessa época a sua primeira modinha, Ao Luar – "Vê que amenidade/ que serenidade/ tem a noite em meio/ quando em brando enleio/ vem lenir o seio/ de algum trovador". E, em seguida, o velho Amâncio espatifa um violão na cabeça do filho. Ele seguira-o e, desaprovando o comportamento de Catulo, resolvera castigá-lo. Tempos depois, Catulo tocaria violão e declamaria – e violão ainda era um instrumento maldito pela sociedade – no Palácio do Catete para a mais seleta platéia da República Velha. Também é dessa época uma história contada pelos seus inimigos envolvendo Catulo e Rui Barbosa: dizem que Catulo encontrou um amigo na rua e falou: "acabo de sair da casa do ministro Rui Barbosa. Recitei o meu Hino às aves e o baiano chorou. Só hoje é que vim a ter certeza de ele é realmente um gênio".

Autodidata, aprendeu português e matemática, depois francês, língua que conhecia bem, a ponto de fazer traduções de poetas que estavam em moda na mudança do século. Entretanto, o gosto pela literatura francesa não fez com que ele se transformasse em um parnasiano a mais, Catulo havia guardado a influência da adolescência passada no nordeste e, ao contrário do que então se cantava, compôs modinhas bem brasileiras. Quando cantou e declamou pela primeira vez para um chefe de Estado, Nilo Peçanha, seus críticos espalharam que Catulo havia entrado no Catete pelos fundos. Mas em 1914 ele dá o "cala boca". Convidado pelo então presidente da República, marechal Hermes, o poeta sobe, de violão em punho, as escadarias do Catete para um novo momento de glória. Anos depois, a mulher do presidente, Nair de Tefé (que se tornou conhecida como caricaturista sob o pseudônimo de Rian) deporia sobre os momentos passados em Palácio pelo poeta: "Essa audição de Catulo, no Palácio do Catete, constituiu o maior sucesso a que um verdadeiro artista poderia aspirar em toda sua vida. Catulo, ao término de cada canção que interpretava, recebia da culta assistência uma ovação delirante. Todos o aplaudiram de pé". Essa audição valeu-lhe um emprego na Imprensa Nacional.

Retornando um pouco no tempo, nos anos que antecederam a virada do século, convém ressaltar que a vida de Catulo não era só composta de serestas, novas amizades, boemia e violões quebrados na cabeça. Logo depois da chegada ao Rio de Janeiro, morre sua mãe e, três anos depois, o pai. De repente, o poeta e seresteiro viu-se na obrigação de trabalhar, é só conseguiu vaga na estiva do cais do porto, pegando no pesado. E a rotina de sua vida sofreria alguma alteração. De dia, a estiva. À noite, o estivador todo enfatiotado partia para as serestas. Assim foi até que o poeta deu sorte. Convidado para uma festa na casa do senador Gaspar de Silveira Martins, ele agradou e, a mulher de Silveira Martins, em retribuição, quis ajudá-lo. Catulo arriscou um pedido de emprego. Ganhou um convite para ser professor dos filhos do casal. Aceitou o emprego e mudou-se para a casa do senador, na Gávea. Enfim, uma vida melhor. De dia, aulas; à noite, seresta. Tudo ia bem, até que Catulo, que já tinha fama de mulherengo, encontra em seu quarto uma moça semi-despida que faz um verdadeiro escândalo se dizendo violentada pelo poeta. Depois de uma passagem na delegacia e outra na igreja, Catulo casa. Só depois fica sabendo que tudo não havia passado de brincadeira de amigos. Era uma farsa, sendo que seu casamento nem constava nos assentamentos da igreja paroquial. A partir de então, é a vez das musas. "Coleira", único amor de sua vida, cujo nome não se conhece, era segundo o próprio poeta, linda, de olhos angelicais, filha de um senador de Goiás. Para ela, Catulo escreveu entre outras Ave Maria Humana e Imortalidade. Mas houve outras musas. E outras poesias. Para a atriz Apolônia Pinto, sua conterrânea, ele escreveu Os olhos dela, que por azar teve que dedicar a mulher de um amigo, pois este seu amigo chegou em casa junto com Catulo de madrugada e a mulher começou a dar a bronca. Catulo para aliviar a situação, cantou a canção Os olhos dela. Isso serviu de carta de alforria para o amigo, pois o poeta, após ter cantado, falou que havia feito a música para ela. Todos os cronistas e contemporâneos dizem que "Coleira" foi de fato o grande amor do poeta mas nada conseguindo, ele acabou por isolar-se no subúrbio de Piedade, onde passou a lecionar num colégio que fundou.

Na enciclopédia Abril de MPB, consta que Catulo da Paixão Cearense era conhecido pelos seus "recitais e audições que dava, pelas serestas que fazia naquele fim de século marcado por tantos acontecimentos: a Proclamação da República, a revolta da Armada, as crises dos governos Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto". Com o começo das gravações mecânicas, o novo século aumentaria sua fama.

Em 1906, o cantor Mário Pinheiro (1880-1921) grava Talento e Formosura para a casa Edson, de Fred Figner & Cia., a pioneira do mercado fonográfico do Brasil. No mesmo ano, grava também Resposta ao talento e formosura; em 1907. O que tu és; Até as flores mentem e Célia; em 1909, Choça ao monte e Cabocla bonita; em 1910, Adeus da manhã e a grande criação de Catulo: Luar do sertão. Talento e formosura, feita em parceria com Edmundo Otávio Ferreira, foi uma das mais sarcásticas criações do poeta, cujo ressentimento desenvolvia-se ao longo de 10 estrofes, reduzidas nas gravações a três ou quatro. A letra, cheia de desprezo, entre outras coisas, dizia que: "Mas quando a morte conduzir-te à sepultura/ o teu supremo orgulho em pó reduzirá". Mais além continua: "E eu, morto embora/ nas canções hei de viver". Flor amorosa foi composta originalmente como polca por Antonio Calado, flautista, compositor e amigo de serestas de Catulo, que colocou letra na melodia por volta de 1890. Já Caboca di Caxangá foi gravada pelo selo Odeon em 1912. Sobre esta melodia falou-se que, como Luar do Sertão, teria sido adaptada de tema folclórico, mas fato é que esta música, para tristeza de Catulo, que não queria ser sucesso assim, acabou virando sucesso no carnaval carioca de 1913.

Independente das críticas, o nome de Catulo não parava de crescer. Ele conseguia o que parecia impossível. Em 1908, por exemplo, por intermédio do maestro Alberto Nepomuceno, Catulo conseguiu a cessão do antigo Instituto Nacional de Música para dar uma audição. Houve protestos, principalmente do crítico Oscar Guanabarino, um dos mais respeitados de então. Ele considerava uma profanação a presença de um violão num salão de música erudita. No prefácio do seu livro Modinhas (Livraria do Império, 1945) o poeta conta, com sua peculiar vaidade, como foi aquela sessão: "Músicos, literatos, médicos, jornalistas, advogados, engenheiros, professores, pintores, o escol de nossa sociedade, diplomatas como o conde Prozoor, então ministro plenipotenciário da Rússia, tudo se encontrava ali no meio da massa popular. Inúmeras pessoas ficaram de pé, por não haver mais lugar. Os aplausos eram tão retumbantes que se ouvia da rua. O crítico musical Oscar Guanabarino, que havia escrito um artigo atacando o maestro Nepomuceno, por haver permitido que eu introduzisse o violão naquele templo onde só pisavam celebridades, depois do meu triunfo, confessou sua falta, saudando-me com palmas delirantes". E a estrela do poeta continuava a brilhar.

Bastos Tigre, em texto publicado no livro Noite de São João, disse que "Catulo foi, é e será sempre o poeta do sertão; e o próprio sertão o reconhece como tal. É o único poeta integral ainda existente em nossa terra. Porque para ele nada existe além de poesia. Se lhe falarem na guerra européia, sai-se com um verso de Hugo a propósito da Guerra de Beresina; e também se conversarem a respeito de modas, salta ele com o soneto célebre de Nicolau Tolentino". Contando que há tempos não via o poeta, Tigre diz que o achou remoçado e que o ar de mocidade "provinha-lhe da ausência de cabelos brancos, pois ele trazia o crânio raspado a máquina duplo-zero". Respondendo o porquê daquilo, Catulo disse a Bastos Tigre que o seu busto no jardim do Monroe (onde funcionava o Senado Federal), não mais se parecia com ele. "E como eu amo e respeito todas as artes, faço o possível para me parecer com o busto. O meu crânio assim raspado dá mais a impressão de granito, você não acha?" Com relação à careca de Catulo, Tigre conta que ele fazia a barba e o cabelo sem a ajuda do espelho, "de cabeça", como dizia. Se a lâmina era nova, cortava-se todo. E quando isso acontecia, esquentava água, lavava-se, enrolava uma toalha na cabeça e antes do sangue coagular, passava talco na cabeça. Ao ver Catulo com a cabeça cheia de traços brancos, Bastos Tigre gozava e dizia: "Lá vai o mapa-mundi com todos os rios da Terra". Quanto ao busto no Monroe, ele só foi erguido por graça e força do próprio poeta que, vaidoso, no final da sua vida, cobrava homenagens a sua grandeza. E assim foi feita a campanha "O tostão do povo", para construção de uma herma, que é como se dizia então. Isso aconteceu em 1940. E Catulo cobrava a todos a subscrição de sua campanha, irritando-se com quem não o houvesse feito.Guimarães Martins organizou um - vá lá - Poliantéia Sobre Catulo, publicada no livro O milagre de São João (Editora Para-Todos, Rio de Janeiro) de autoria do poeta. Nessa Poliantéia, Martins transcreve o que publicou o jornal carioca A noite, sobre a inauguração do busto do poeta. Diz o jornal que "uma compacta multidão" se reuniu próxima ao busto que estava coberto com uma bandeira brasileira, "e depois de muitos discursos, o poeta sobe o degrau do pedestal da sua herma. Vai falar. Todos os presentes o aclamam. Ouve-se uníssono o grito de alegria de todos quantos ali estão para homenagear o excelso cantor do sertão: - Catulo! Catulo! As suas palavras são espontâneas, cheias de sinceridade. Di-las num arroubo. São as seguintes: "Bem sei que esta homenagem é uma demonstração da simpatia que mereço dos meus compatriotas. Se algum deles quiser desaprová-la, não me condene! Condene o povo! Antes de agredir-me, considere que desde S. Excia. O senhor presidente da República, até o mais humilde brasileiro, todos contribuíram com o seu tostão para que ela se realizasse. Antes de terminar, quero dirigir-me a V. Exma., senhor presidente da República, como o primeiro magistrado da nação, senhor presidente! Amo todas as pátrias, amo todos os homens e rogo a Deus, de joelhos, que os conduza para o paraíso da felicidade. Mas à V. Excia. sustento o que já disse nestes versos do meu último livro – Um caboclo brasileiro. São eles, senhor presidente, todo o entusiasmo, todo o delírio, toda a loucura do meu incomensurável patriotismo". A seguir, o poeta lê os versos. Tecendo elogios, aclamado publicamente, nada mais óbvio que Catulo recebesse as benesses do poder traduzida em empregos públicos. Sobre estes empregos, Bastos Tigre narra um anedotário bastante interessante: conta ele que, quando Catulo assumiu seu cargo de datilógrafo na Imprensa Nacional, só aparecia lá uma vez por mês. E no dia do pagamento. Os inimigos fizeram chegar ao presidente esse fato mas ele desfazia a intriga, chamando Catulo de maluco e arrematando: "mas quem mandou ele ir tanto ao serviço".

Uma outra vez, depois da revolução de 1930, o poeta foi surpreendido por um telegrama que exigia sua presença no seu posto. Lá chegando, conta Bastos Tigre, "um cerbérico porteiro vedou-lhe a passagem. Que vinha fazer ali, à sala privada dos datilógrafos?"– Sou funcionário desta casa, retrucou o poeta.– Funcionário, o senhor? Menas essa. Eu estou aqui há 25 anos e não o conheço.– Pois saiba que sou,- e Catulo tomou, - o melhor que pode, uma atitude datilográfica.– Como se chama o cavalheiro?– Catulo.– De quê?– Da Paixão Cearense.– Da Paixão Cearense? É parente do outro?– Não, senhor, Sou... o outro. Depois que entrou na repartição, o poeta foi levado até a presença do diretor-geral, que muito solícito, perguntou a ele que tipo de máquina preferia.– Qualquer uma doutor.– Sim, mas há de ter alguma de sua predileção...O poeta pensou, revolveu a memória à procura de um nome de máquina e, afinal, atirou, corajosamente, a marca que lhe veio à lembrança:- Prefiro uma Singer. Finalmente quando se aposentou, o poeta ficou furioso, pois quando se aposentou acharam que ele só tinha 10 ou 12 anos de trabalho e deram-lhe na época, 300 mil réis, um salário que, como dizia o próprio poeta, era " um verso de pé quebrado". A queixa foi tão grande que Vargas presidente na época, mandou publicar decreto devolvendo integralmente os vencimentos do poeta.

Nos últimos dias de vida, Catulo morou num barracão na rua Francisco Méier, hoje rua Catulo da Paixão Cearense, no Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro. Ao barracão deu o nome de "Palácio Choupanal" e nele o poeta recebia velhos amigos, antigos companheiros da estiva e visitantes ilustres, entre eles, Monteiro Lobato, o poeta espanhol Salvador Rueda, o tenor e médico mexicano Alfonso Ortiz Tirado. Grande conversador, bom bebedor de cerveja, Catulo vivia sempre com a mesa cheia, e recebia as visitas de pijama e chinelos. Aliás, ele só conhecia dois trajes: ou o pijama ou o terno e gravata, nada de meios termos.

Em 1939, o violonista e compositor Paraguaçu promoveu alguns recitais de Catulo em São Paulo. A série de récitas incluía uma para o interventor de São Paulo, então Ademar de Barros, no palácio dos Campos Elíseos. A série de recitais foi um sucesso absoluto, seus livros esgotaram-se, pois todos queriam obter seu autógrafo. Para dar um exemplar à dona Leonor, mulher de Ademar, o poeta teve que mandar buscar um livro no Rio de Janeiro. Entretanto, esta série de recitais foi o resultado de uma carta em que o poeta apela ao amigo: "A minha situação é crítica, muito crítica, só pessoalmente posso explicar para você. Preciso que me arrume alguma coisa em São Paulo para melhorar a minha situação". Em parte o apelo deu certo, pois Ademar entregou a Catulo um envelope com 20 contos de réis, uma fábula na época. Matreiro, o poeta agradeceu: "Eu sabia que V. Excia. não ia deixar por menos". Mais nada disso adiantou. Catulo acabaria morrendo pobre a 10 de maio de 1946. Seu corpo foi embalsamado e o escultor Flory Gama modelhou-lhe a máscara mortuária. Em depoimento para a História da MPB da Editora Abril, o seu amigo Carlos Maul contou que o enterro do poeta não foi um fato comum na cidades. "A banda do Corpo de Bombeiros ia tocando a Marcha Fúnebre e atrás da carreta com o corpo ia a massa popular. Quando o corpo chegou ao Cemitério São Francisco de Paula, no Catumbi, havia milhares de pessoas. Os discursos de personalidades fizeram com que a cerimônia entrasse pela noite. Uma lua imensa começou a luzir no céu e, espontaneamente, o tenor Alfonso Tirado começou a cantarolar Luar do Sertão. Em pouco milhares de vozes dominavam a noite".

Letras e cifras

Ai de mim!, Ao luar, Até as flores mentem, Caboca bunita, Caboca di Caxangá, Choro e poesia(Ontem ao luar), Clélia (Ao desfraldar da vela), Fechei meu jardim, Iara (Rasga o coração), Luar do sertão, Não vê-la mais (Só para moer), O meu ideal, Os olhos dela, Palma do martírio, Quando ela passa, Recorda-te de mim, Sertaneja, Talento e formosura, Templo ideal, Terna saudade (Por um beijo), Três estrelinhas (O que tu és), Tu passaste por este jardim, U poeta do sertão, Vai ò meu amor, ao campo santo.

Fontes: Jangada Brasil, Cifrantiga - História da MPB e Cifras, A Canção no Tempo ( Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello) - Editora 34.

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