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quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Felisberto Marques

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Felisberto Marques (circa 1860 – circa 1920, Rio de Janeiro, RJ) era flautista, compositor e professor. Contemporâneo e amigo do maestro Anacleto de Medeiros, muito pouco se sabe a seu respeito. Participou da serenata que Eduardo das Neves, o palhaço Dudu, realizou em homenagem a Santos Dumont, em 1903.

Segundo Alexandre Gonçalves Pinto, "era um melodioso flauta de justo valor pela expressão com que executava as suas admiráveis composições, pois Felisberto, além de um bom executor, era um exímio professor de flauta".

Ainda em "O choro", Alexandre conta que "Anacleto de Medeiros considerava e venerava Felisberto, pela sua inteligência musical e seu fino trato":

“Vou aqui descrever outro chorão da velha e nova guarda, já fallecido, Felisberto Marques, mais conhecido por Maçarico. Era um melodioso flauta de justo valor pela expressão com que executava suas admiráveis composições, pois Felisberto além de um bom executor, era um exímio professor de flauta. Ultimamente, já nos fins de sua gloriosa vida foi accommmettido de um súbito mal que com espanto de todos os seus admiradores, perdeu a embocadura, e nada mais pôde tocar. Eis as suas composições: "Suspiros d'Alma", "Tutú", "Os Deuses de Maricota" e muitas outras que não tenho no meu archivo musical. Anacleto de Medeiros considerava e venerava Felisberto, pela sua inteligência musical e seu fino trato” (Alexandre Gonçalves Pinto).

Obras: Manoelita; Odalisca; Os deuses de Maricota; Paquetaense; Suspiros d'alma; Tutu.

Fontes: Dicionário Cravo Albin da MPB; Enciclopédia da Música Brasileira – Art Editora; O Choro – Reminiscências dos chorões antigos, 1936 – Alexandre Gonçalves Pinto.
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sábado, 4 de agosto de 2007

Iara (Rasga o coração)

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"Melodia espontânea e escorreita; harmonização singela com alguns acordes arpejados, principalmente no tempo fraco dos compassos." Assim o maestro Batista Siqueira analisa o xote "Iara", por ele considerado "uma obra prima de beleza e simplicidade".
Composto por volta de 1896, em homenagem a um barco homônimo, campeão de regatas, "Iara" só seria gravada em 1907, ano da morte de seu autor Anacleto de Medeiros. Tempos depois, quando já era peça obrigatória no repertório de bandas, recebeu letra de Catulo que a rebatizou de "Rasga o Coração".
Essencialmente instrumental, o xote perdeu em graça e leveza ao ser transformado em canção, embora os versos de Catulo tenham-lhe aumentado a popularidade. Esses versos, aliás, são tão numerosos que mereceram de Guimarães Martins (no livro Modinhas) a curiosa e acaciana recomendação: "O cantor que não desejar interpretar todas estas estrofes escolherá as que mais lhe agradarem". Admirador de Anacleto de Medeiros, Villa-Lobos aproveitou o tema de "Iara" em seu Choros n° 20.
Iara - Rasga o Coração----- clique para ouvir amostra da música
(letra de Catulo da Paixão Cearense e música de Anacleto Medeiros)
Se tu queres ver a imensidão, / Do céu e mar,
Refletindo a prismatização / Da luz solar,
Rasga o coração, / Vem te debruçar,
Sobre a vastidão, / Do meu penar,
Rasga, o que hás de ver, / Lá dentro a dor, a soluçar,
Sob o peso de uma cruz, de lágrimas chorar,
Anjos a cantar, Preces que dirás,
Deus a ritmar, seus pobres ais,
Sorve todo olor, que anda a recender,
Veras que espinhosas, florações do meu sofrer,
Vê se podes ler, nas suas pulsações,
As brancas ilusões, que eu releguei, no seu gemer,
O que não pode é te dizer, nas palpitações,
Ouve-o, brandamente, docemente, a palpitar,
A se for por tal, num terno vesperal,
Mais puro que uma grande,
A se ouvir um hino, só de flores a cantar,
Sob um mar de pétalas de dores, ao luar,
Doido a te chamar, penso em te esperar,
Na ânsia de te ver, ou de morrer,
Tens o meu perdão, flor me vem abrir,
Este coração, na primavera desta dor,
Ao reflorir, mas ao sorrir, Nos rubros lábios teus,
Terás minha paixão, sorrindo, / Adeus !
Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34
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Três estrelinhas (O que tu és)

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Três estrelinhas (O que tu és) - polca - 1906-----clique para ouvir amostra da música
- Catulo da Paixão Cearense e Anacleto de Medeiros

Se um riso vem / Teus lábios colorir de almo rubor / As almas a teus pés / Vêm prosternar-se com ardor / A luz transluz nos céus / Nos céus dos olhos teus / Saudosos como o luar / No mar a cintilar

Tua alma cheira mais / Que um alvo jasmineiro todo em flor / Onde tu passas fica um aroma a soluçar / Tu és de Deus a obra-prima / Não tens par! / És uma rima singular

Tu és a pérola ideal / Que o mar gerou / Tu és a flor mais aromal / Que Deus sonhou / A mais plangente e meiga lira sons não tira / Como as notas desse teu falar

Teus seios têm o sacro / E doce aroma de um missal / Teus lábios têm a eterna / Sensação da extrema-unção / Tu fazes sem pensar os astros palpitar / Tu fazes sem querer as almas padecer

Tuas tranças cheiram mais / Que as rosas trescalantes de um rosal ; Que a madrugada vem de orvalho perolar / És uma flor da fonte à margem / De cristal / És um poema divinal!

És a mais sonora estrofe do Senhor / És a irradiação mais branca do luar / És a luz solar / Um hino sideral! / Nos olhos tens os raios / De uma estrela vesperal

Nos lábios tens a graça / Inebriante de hidromel / Da imagem do perdão / Tu és a cópia mais fiel / Tu és um coração de orvalho lá do céu / Que um anjo a chorar verteu

Fonte: Cifrantiga - História da MPB e Cifras
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Terna saudade (Por um beijo)

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Muita música instrumental de sucesso recebeu letra de Catulo da Paixão Cearense, que assim se fez parceiro de grandes compositores de sua geração. Entre estes está Anacleto de Medeiros, autor da valsa "Terna Saudade", que o poeta transformou na pomposa canção "Por um Beijo": "Ó ri, meu doce amor / sofri lágrimas de flor / teu sorriso inspira a lira / que afinei por teu falar..."
Embora o melhor de "Terna Saudade" seja a melodia, seu autor é citado pelo jornalista Guimarães Martins, no livro Modinhas, como "colaborador de Catulo na parte musical". Herdeiro dos direitos do poeta, Martins procurava sempre minimizar o trabalho de seus parceiros, tachando-os de meros colaboradores.
Terna saudade (Por um beijo) - valsa - 1905--- clique para ouvir amostra da música
(Anacleto de Medeiros / Catulo da Paixão Cearense)
Ó ri, meu doce amor, / Sofri lágrimas de flor / Teu sorriso inspira / A lira que afinei por teu falar / E quer de amor vibrar / Ao sol de teu olhar / Ri meu doce amor / Sorri, pérola da flor / Abre em teu lábio um sorriso / Onde um coração diviso, / De algum anjo que desceu do azul.
Num teu sorriso / Luz de poesia / Vem dar a melodia / E musicar os versos meus / Que eu mostrarei a Deus, / Como eu te amo, / Alma dileta / E sem eu ser poeta / Irei fazer o eterno / Te aclamar nos céus.
Irei estrelas lá no céu roubar / Trarei da lua, um raio de luar / Depois dos céus eu descerei ao mar / E a pérola mais bela irei buscar / Sem recear as iras do Senhor, irei, / Roubar os cofres do Senhor / Trarei a essência do divino amor / Se tu, velada no mais vasto véu, / Concederes-me a vitória / A suprema gloria, / De um só beijo teu !
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quinta-feira, 5 de julho de 2007

Anacleto de Medeiros

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Anacleto Augusto de Medeiros, compositor, regente e instrum. nasceu em Paquetá RJ em 13/7/1866 e faleceu em 14/8/1907. Nascido na antiga Rua dos Muros, filho de uma escrava liberta, foi batizado com o nome do santo do dia. Aos nove anos ingressou na Companhia de Menores do Arsenal de Guerra (Rio de Janeiro RJ) e iniciou-se no aprendizado da música, tocando flautim na banda do Arsenal, dirigida por Antônio dos Santos Bocót.
Em 1884 entrou para a Imprensa Nacional (então Tipografia Nacional), como aprendiz de tipógrafo, e matriculou-se no Conservatório de Música, onde foi contemporâneo de Francisco Braga. Na Tipografia, organizou o Clube Musical Guttemberg, integrado por meninos operários. Quando se formou no Conservatório, em 1886, executava vários instrumentos de sopro, mas preferia o sax-soprano. Com alguns músicos da extinta banda de Paquetá, fundou a banda da Sociedade Recreio Musical Paquetaense, compondo para esse conjunto algumas obras sacras, executadas sobretudo em festas, nas igrejas da ilha.
Por volta de 1887, começou a ser mais constante como compositor, lançando principalmente polcas, valsas e xótis. Muitas dessas composições alcançaram grande popularidade e eram executadas por bandas em todo 0 Brasil. Uma das mais célebres foi o xote Iara, que mais tarde recebeu versos de Catulo da Paixão Cearense e foi editado em 1912, com o nome de Rasga o coração, tendo sido aproveitado por Villa-Lobos como tema de seus Choros n° 10. Foi mestre e organizador de várias bandas, como a da Fábrica de Tecidos Bangu, a da Fábrica de Tecidos de Macacos (depois Paracambi) e a de Piedade (Magé).
Em 1896, compôs o dobrado Jubileu, para a Exposição Internacional do Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, já bastante conhecido como regente e compositor, foi convidado a organizar a Banda do Corpo de Bombeiros, do Rio de Janeiro, para a qual levou alguns elementos da Sociedade Recreio Musical Paquetaense e antigos colegas do Arsenal de Guerra, além de músicos de choro. A Banda do Corpo de Bombeiros ficou famosa sob sua direção, tendo gravado alguns dos primeiros discos impressos no Brasil, a partir de 1902. Chegou ao posto de primeiro-tenente da Guarda Nacional.
Em 1935, por iniciativa do pintor e escultor Pedro Bruno, uma das ruas da ilha recebeu o nome de Maestro Anacleto, homenagem a um dos maiores compositores populares de sua época.
Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora
Maestro violento e caprichoso?
"Anacleto de Medeiros. Nasceu na ilha de Paquetá e morava na Rua da Ajuda com o inesquecível humorista Moreira da Imprensa Nacional, muito conhecido dos chorões daquele tempo pela sua verve espiritual. Era o maestro que aproveitava as melodias dos pássaros, dos apitos das fábricas, das cornetas dos tripeiros, do badalar dos sinos, dos toques das buzinas, dos automóveis, do trinar dos apitos dos guardas-noturnos, e de tudo que formasse uma nota boa ou semitonada. Por ele eram todos esses ritmos aproveitados para as suas sublimes composições.

Anacleto, foi um grande lecionador de música, assim como um mestre de muitas bandas particulares deixando muitos discípulos que fizeram honra aos seus dotes de professor exímio. Como mestre da Banda do Corpo de Bombeiros ele imortalizou-se, com a sua inteligência e devotamento, trabalhou corrigindo, modelando e aperfeiçoando, todos os seus comandados com a magia de uma grande vara usada por ele nos ensaios a guisa de batuta que fazia os seus alunos obedecerem. Como maestro ensaiador transformou a Banda do Corpo de Bombeiros em um conjunto de músicos professores que o respeitavam e o obedeciam, na maior rispidez de suas energias, pois Anacleto era um diretor de música caprichoso e violento.

Porém, quando não tinha na mão a batuta era um cordeiro de mansidão. Era uma pomba sem fel e um sincero amigo dos seus subordinados. Privando com eles na maior intimidade no mesmo nível de igualdade os acompanhando para o choro onde sobressaía com um inigualável executor no seu saxofone que era o seu instrumento predileto. Os choros organizados por Anacleto faziam falar os mudos e movimentava os paralíticos, desatinava a mocidade e trazia a juventude nos corações dos velhos. As competições musicais de Anacleto são conquistadas e admiradas por todos os chorões, composições estas que deixo de enumerá-las aqui por serem todas elas conhecidas pelos chorões da velha guarda."
O Choro - Reminiscências dos chorões antigos - Rio de Janeiro, 1936 (Alexandre Gonçalves Pinto)
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