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terça-feira, 4 de setembro de 2007

Coração Materno

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Todo o romantismo dramático, exacerbado, que caracteriza o estilo Vicente Celestino está em "Coração Materno", composição baseada numa lenda de mais de quinhentos anos, segundo o autor. Secular ou não, o fato é que a tal lenda inspirou a mais trágica (se levada a sério) ou mais ridícula canção de nossa música popular (na foto: Vicente Celestino).
Uma canção sobre as desventuras de um sujeito que mata a própria mãe e lhe extrai o coração, para oferecê-lo a namorada, que assim o exige como prova de sua paixão... E quando volta correndo para completar a missão junto à amada, o desastrado matricida tropeça e cai, quebrando a perna. Nesse momento, o coração materno salta-lhe da mão e, rolando pelo chão, exclama: "Magoou-se, pobre filho meu? / vem buscar-me que ainda sou teu...". Pois esta inacreditável canção impressionou e comoveu os fãs de Vicente Celestino, constituindo-se em um de seus maiores e mais duradouros sucessos.
Em 1968, "Coração Materno" foi utilizado com grande repercussão por Caetano Veloso, no disco Tropicália, simbolizando o culto ao cafona. Em flagrante contraponto à versão patética de Vicente, Caetano deu-lhe uma interpretação linear e fria, acompanhado por uma orquestra de Rogério Duprat.
Assim como O Ébrio, Coração Materno também virou filme, rodado em 1952 e estrelado por Vicente Celestino e sua mulher Gilda de Abreu. Só que no filme, Gilda, autora do argumento, amenizou a tragédia, cancelando o tricídio. Talvez por isso não tenha repetido o sucesso de "O Ébrio"...

Coração materno (canção) - 1937 - Vicente Celestino---clique para ouvir amostra da música

Int.: Dm Em5-/7 A4/7 A7

Dm A7 Dm
Disse um campônio à sua amada:"Minha idolatrada,diga-me o que quer
Am5-/7 D7 Gm Gm/F E A7
Por ti vou matar, vou roubar, embora tristezas me causes mulher
Dm A7 Dm
Provar quero eu que te quero,venero teus olhos, teu porte, teu ser
Am5-/7 D7 Gm A7 D A7
Mas diga, tua ordem espero,por ti não me importa matar ou morrer"
D Bm Em A7 D A7
E ela disse ao campônio, a brincar:"Se é verdade tua louca paixão
D D7 G E A7
Parte já e pra mim vá buscar de tua mãe inteiro o coração"
F#7 Bm Em A7 D A7
E a correr o campônio partiu, como um raio na estrada sumiu
D D7 G A7 Dm
Sua amada qual louca ficou, a chorar na estrada tombou
Dm A7
Chega à choupana o campônio
Dm
E encontra a mãezinha ajoelhada a rezar
Am5-/7 D7 Gm Gm/F
Rasga-lhe o peito o demônio
E A7
Tombando a velhinha aos pés do altar
Dm A7 Dm
Tira do peito sangrando da velha mãezinha o pobre coração
Am5-/7 D7 Gm A7 D A7
E volta à correr proclamando:"Vitória, vitória,tens minha paixão"
D Bm Em A7 D A7
Mas em meio da estrada caiu, e na queda uma perna partiu
D D7 G E A7
E à distância saltou-lhe da mão sobre a terra o pobre coração
F#7 Bm Em A7 D
Nesse instante uma voz ecoou: "Magoou-se, pobre filho meu?
D D7 G A7 D
Vem buscar-me filho, aqui estou, vem buscar-me que ainda sou teu!"
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O Ébrio

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Vicente Celestino interpretando "O ébrio".

O sucesso permanente da canção "O Ébrio" inspiraria, dez anos depois de seu lançamento, a realização do filme homônimo, recordista de bilheteria em todo o país. Impressionado com o personagem, o público chegaria mesmo a identificá-lo com seu criador, o abstêmio Vicente Celestino.
Com efeito, o tema e principalmente a forma declamada da interpretação foram fatores decisivos para que se chegasse a tal exagero. A letra dramática, repleta de desventuras e imagens beirando a pieguice, é uma perfeita sinopse para o enredo de um filme, desde o prólogo falado à parte musical propriamente dita. Nesta, o contraste da primeira parte, no modo menor, com a segunda, no modo maior, contribui para ressaltar a tragédia do protagonista. "O Ébrio", que também inspirou uma peça de teatro (em 1936) e uma novela de televisão (na TV Paulista, em 1965), foi lançado no terceiro disco de Vicente Celestino na Victor, gravadora onde ele permaneceu por 33 anos, até sua morte em 1968.
O Ébrio (canção) - 1936 - Vicente Celestino---clique para ouvir amostra da música
"Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória. Durante a minha trajetória artística tive vários amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a "Tosca", uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa.
Um dia, quando eu cantava "A Força do Destino", ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça, bonita...
E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez "A Força do Destino", Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Daí pra cá eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. Até que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, não! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me ébrio, ébrio..."

-----Am--------- E7------------------------- Am
Tornei-me um ébrio, na bebida busco esquecer
-------------A7 ----------------------------------Dm
Aquela ingrata que eu amava, e que me abandonou
---------------------Dm6 ---------Am
Apedrejado pelas ruas, vivo a sofrer
--------------B7---------------------------- E7
Não tenho lar, e nem parentes, tudo terminou
---------------------------------------------Am
Só nas tabernas é que encontro o meu abrigo
-----------A7------------------------------- Dm
Cada colega de infortúnio, um grande amigo
-------------------------Dm6--------------- Am
Que embora tenham como eu seus sofrimentos
------------E7----------------------------- Am --------E7
Me aconselham, e aliviam os meus tormentos

----------A-------- Gb7 ---------Bm
Já fui feliz e recebido com nobreza até
----------------E7----------------------- A -------E7
Nadava em ouro, e tinha alcova de cetim
--------------A---------------- Gb7 -------------Bm
E a cada passo um grande amigo em que depunha fé
--------------E7 ---------------A
E nos parentes . . . confiava sim . . .
--------------------------Gb7-------- Bm
E hoje ao ver-me na miséria, tudo vejo então
----------D7 ---------------------------Db7
O falso lar que amava, e a chorar deixei
------------Dm--------- F -----A------------ Gb7
Cada parente, cada amigo, um ladrão
---------------Bm--------- E7------------- A----- Am
Me abandonaram, e roubaram o que amei.

------------E7 -----------------------Am
Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar
-----------------A7---------------------------------- Dm
Quando eu morrer a minha campa nenhuma inscrição
-----------------------------------Dm6------------ Am
Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar
---------------B7------------------- E7
Este ébrio triste, e este triste coração

---------------------------------------------Am
Quero somente na campa em que eu repousar
--------------A7--------------------------- Dm
Os ébrios loucos como eu venham depositar
---------------------------------Dm6------ Am
Os seus segredos, ao meu derradeiro abrigo
----------E7 -------------------------Am
E suas lágrimas de dor ao peito amigo
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segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Ouvindo-te

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Ouvindo-te (tango-canção) - 1935 - Vicente Celestino

Basta o castigo que vens dando
Está pouco a pouco me matando
Canto de ti só ouço o contracanto
No entanto queria ver
Justo seria conhecer
Quem vive a amar e adorar

A tua voz estou a ouvir
No entanto eu queria a ti sentir
És tão cruel, que mal te fiz
Que mesmo sem te ver sempre te quis
E teu prazer é que eu sofra de amor por ti
Que te ame sem te ver meu bem-te-vi
E bastaria que só uma vez te visse flor
Depois morrer dizendo bendito amor
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segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Noite cheia de estrelas

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Contrastando com o humor irreverente de Noel e Lamartine, 1932 teve também o romantismo derramado de Cândido das Neves em "Noite cheia de Estrelas". Filho do palhaço, cantor e compositor Eduardo das Neves, Cândido - conhecido como Índio, apesar de ser negro - foi um seguidor de Catulo da Paixão Cearense, notabilizando-se como autor de canções seresteiras. Exemplo disso é "Noite Cheia de Estrelas", um tango-canção cheio de imagens rebuscadas e palavras escolhidas no dicionário: "as estrelas tão serenas / qual dilúvio de falenas / andam tontas ao luar / todo astral ficou silente / para escutar / o teu nome entre endechas / as dolorosas queixas / ao luar...". Gravada por Vicente Celestino, a canção é um clássico dos repertórios do cantor e do autor.

Noite Cheia de Estrelas - 1932 - Cândido das Neves-- clique para ouvir amostra da música
Tom: Gm
Intro: Gm G# Gm D# G# D7 Gm

Gm
Noite alta, céu risonho
A quietude é quase um sonho
Dm5-/7
O luar cai sobre a mata
G7
Qual uma chuva de prata
Cm
De raríssimo esplendor
Am5-/7
Só tu dormes, não escutas
D7 Gm
O teu cantor
Cm
Revelando à lua airosa
D7 Gm D7
A história dolorosa desse amor
Gm
Lua...
D7 Gm D7 Gm
Manda a tua luz prateada
Cm
Despertar a minha amada
Am5-/7
Quero matar meus desejos
D# D7
Sufocá-la com os meus beijos
Gm D7
Canto
Gm E7 Gm
E a mulher que eu amo tanto
G7 B° Cm
Não me escuta, está dormindo
Canto e por fim
Am5-/7 D7 Gm
Nem a lua tem pena de mim
Am5-/7
Pois ao ver que quem te chama sou eu
D7 Gm D7 Gm
E entre a neblina se escondeu
Lá no alto a lua esquiva
Está no céu tão pensativa
Dm5-/7
As estrelas tão serenas
G7
Qual dilúvio de falenas
Cm
Andam tontas ao luar
Am5-/7
Todo o astral ficou silente
D7 Gm
Para escutar
Cm
O teu nome entre as endechas
D7
A dolorosas queixas
Gm
Ao luar
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domingo, 12 de agosto de 2007

O cigano

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Nem só de música sertaneja se constitui a obra de Marcelo Tupinambá. Um bom exemplo de seu lado cosmopolita é "O Cigano", uma das primeiras composições brasileiras a receberem a designação de fox-canção. Seguindo a moda de músicas sobre motivos exóticos, que imperava na época, Tupinambá fez em estilo andaluz esta canção, que trata da transitoriedade do amor, através do canto de um misterioso cigano.

Com uma bela melodia (que lembra a composição Oriental, de Patápio Silva) vestindo esta fantasia de gosto duvidoso, O cigano fez sucesso em 1924, quando foi gravado por Vicente Celestino, e 22 anos depois, ao ser revivido por Francisco Alves. Até então, segundo Tupinambá, as edições impressas da canção já haviam vendido mais de cem mil exemplares, o dobro de O matuto, seu segundo maior sucesso. Gastão Barroso, que assina a letra com o pseudônimo de João do Sul, era um amigo de Tupinambá desde os tempos de mocidade.

O Cigano (fox-canção, 1924) - Marcelo Tupinambá e João do Sul-- clique para ouvir amostra da música

Um dia, / Eu em Andaluzia, / Ouvi, um cigano a cantar, / Havia, / No canto a nostalgia, / De castanholas batidas ao luar, / Mas era, / A canção tão singela, / Que eu julguei para mim, / E agora, / Que minh'alma te chora, / Ouve bem, a canção que era assim :

O amor, / Tem a vida da flor, / Não sonhe alguém, / Do seu sonho o colher... / Pois bem, / Como acontece à flor, / O lindo amor, / Principia a morrer.

Cigano, / Que sabias o engano, / Por que me fizeste tão mal? / Não fora, / A canção traidora, / E o meu sonho seria eternal! / Quem há de fugir, / A realidade, / Vem desmentir a ilusão? / E hoje, / Que o teu beijo me foge, / Cantarei, / Do cigano, a canção!
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