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segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Feitiço da Vila

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Noel Rosa amou Vila Isabel, o bairro onde nasceu, viveu e morreu. Não é assim de admirar que imortalizasse esse amor em uma de suas melhores composições, o clássico "Feitiço da Vila". Sobre uma melodia de Vadico muito bem elaborada, ele desenvolveu versos que a enaltecem, ressaltando sua ligação com o samba ("São Paulo dá café / Minas dá leite / e a Vila Isabel dá samba" ), samba que enfeitiça e dignifica ( "Tendo o nome de princesa / transformou o samba / num feitiço decente / que prende a gente" ), uma Vila Isabel, enfim, a que o poeta se orgulha de pertencer ("Paixão não me aniquila / mas tenho que dizer / modéstia à parte / meus senhores, eu sou da Vila").
Tudo isso dito assim de forma clara, objetiva, mas sem prejuízo do lirismo, é bem característico da poesia de Noel. Lançado em dezembro de 1934, em meio ao repertório carnavalesco, "Feitiço da Vila" é dedicado a Lela Casatle, uma beldade do bairro, então eleita Rainha da Primavera. Como se vê, a Vila não dava apenas samba...

Feitiço da Vila (samba) - 1935 - Noel Rosa e Vadico-- clique para ouvir amostra da música
Tom: C

C E7 F
Quem nasce na lá Vila / Nem sequer vacila
E7
Em abraçar o samba
F G7 C A7
Que faz dançar os galhos do arvoredo
D7 G7 C G7
E faz a lua nascer mais cedo

C E7 F
O sol da Vila é triste / Samba não assiste
E7
Porque a gente implora:
F G7 C A7
Sol pelo amor de Deus não venha agora
D7 G7 C A7
Que as morenas vão logo embora . . .

Dm Bb7 Dm
A Vila tem um feitiço sem farofa
Fm G7 C E7
Sem vela e sem vintém / Que nos faz bem
Am E7 Am
Tendo nome de princesa
B7 Em D7 G7
Transformou o samba num feitiço decente

Que prende a gente

C E7 Am
Lá em Vila Isabel/ Quem é bacharel
F E7 F G7 C A7
Não tem medo de bamba / São Paulo dá café, Minas dá leite
D7 G7 C G7 C E7
E Vila Isabel dá samba,/ Eu sei tudo que faço
F E7
Sei por onde passo / Paixão não me aniquila
F G7 C A7
Mas tenho que dizer, modéstia à parte
D7 G7 C Fm C
Meus senhores eu sou da Vila !
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Conversa de botequim

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Não existe em nossa música popular crônica mais espirituosa sobre uma cena do cotidiano que a realizada por Noel Rosa em "Conversa de Botequim". Localizada em um café, ambiente que o autor conhecia como ninguém, a crônica tem como personagem principal um freguês desabusado que, ao preço de uma simples média com pão e manteiga, acha-se no direito de agir como se estivesse em sua casa.
Assim, em ordens sucessivas, ele exige do garçom atendimento rápido e eficiente : "Seu garçom faça o favor / de me trazer depressa / uma boa média que não seja requentada/ um pão bem quente com manteiga à beça / um guardanapo / um copo d'água bem gelada..." -, que inclui ainda o fornecimento de "caneta, tinteiro, envelope, cartão, cigarro, isqueiro, cinzeiro, revistas, o resultado do futebol" e até "o empréstimo de algum dinheiro", pois deixara o seu com o bicheiro.
Tudo isso fiado, pois, para terminar, o sujeito ordena: "Vá dizer ao seu gerente / que pendure essa despesa / no cabide ali em frente". Completa esta obra-prima uma melodia sincopada de Vadico, que se casa com a letra de forma primorosa, como se as duas tivessem sido feitas ao mesmo tempo, por uma mesma pessoa. Noel Rosa é o melhor intérprete de "Conversa de Botequim", uma de suas composições mais gravadas. No seu jeito simples de cantar, ele "diz" a letra com a naturalidade com que um malandro daria todas aquelas ordens a um garçom de botequim.
Conversa de botequim (samba) - 1935 - Noel Rosa e Vadicoclique para ouvir amostra da música
G A A/G F#m7 C7 B7 E7(4) E7 Bb7 A7 Eb7 D7 C7(#9) B7(#9)

B7(#9) Em7 A7 D
Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
B7 Em7 A7 D D/C
Uma boa média que não seja requentada
G/B F#/Bb Bm7/A
Um pão bem quente com manteiga à beça,
E/G# E7(4) E7 A7
Um guardanapo e um copo d'água bem gelado

B7(#9) Em7 A7 D
Feche a porta da direita com muito cuidado
B7 Em7 A7 D D/C
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
G/B Gm/Bb D/A
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Bm7 E7(9) A7 D D/C
Qual foi o resultado do futebol

G/B B7/D# Em7 G7
Se você ficar limpando a mesa
C7 B7(9) B7(b9)
Não me levanto e nem pago a despesa
E7(4) E7 A7
Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro
D D/C
Um envelope e um cartão

G/B B7/D# Em7 G7
Não se esqueça de me dar palitos
C7 B7(9) B7(b9)
E um cigarro pra espantar mosquitos
E7(4) E7 A7 G4
Vá dizer ao charuteiro, que me empreste umas revistas
D7 B7(#9)
Um isqueiro e um cinzeiro

Telefone ao menos uma vez para 34-4333
E ordene ao seu Osório
Que me traga um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório

Seu garçom me espreste algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure essa despesa no cabide ali em frente
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segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Feitio de oração

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O compositor Vadico (Osvaldo Gogliano) era um jovem de 22 anos e trabalhava no Rio havia pouco tempo, quando foi apresentado por Eduardo Souto a Noel Rosa, nos estúdios da Odeon. Razão da apresentação: o maestro acabara de ouvi-lo tocar ao piano uma música de sua autoria, ainda sem letra, e achara que o encontro poderia render uma boa parceria.

Noel, então, impressionado com a beleza e o clima místico da melodia, fez a letra de "Feitio de Oração", iniciando com uma obra-prima a parceria desejada. Pertence a esta letra os famosos versos: "Batuque é um privilégio / ninguém aprende samba no colégio..." A dupla Noel e Vadico durou quatro anos, deixando onze composições.

Feitio de Oração - 1933 - Noel Rosa e Vadico--clique para ouvir amostra da música


Tom: E

E Fº F#m
Quem acha vive se perdendo
D#7 Am6/C B7
Por isso agora eu vou me defendendo
E/G# G#m E7
Da dor tão cruel desta saudade
A Am B7 E
Que, por infelicidade, meu pobre peito invade
Fº F#m
Batuque é um privilégio
F#7 Am6/C B7
Ninguém aprende samba no colégio
E/G# F#m E7
Sambar é chorar de alegria
A Am B7 E
É sorrir de nostalgia dentro da melodia
F#m B7 E
Por isso agora lá na Penha vou mandar
E/G# Gº F#m7 B7 E
Minha morena prá cantar com satisfação
D7 C#7 F#m
E com harmonia essa triste melodia
D#7/G G# B7
Que é meu samba em feitio de oração
E Fº F#m F#7 Am6/C B7
O samba na realidade não vem do morro nem lá da cidade
E/G# G#m E7 A Am
E quem suportar uma paixão sentirá que o samba então
B7 E A A#º E/B C#7 F#7 B7 E
Nasce no coração
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segunda-feira, 2 de julho de 2007

Vadico

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Vadico (Osvaldo de Almeida Gogliano), compositor, regente e instrumentista, nasceu em São Paulo SP, em 24/6/1910 e faleceu no Rio de Janeiro RJ, em 11/6/1962. Filho de imigrantes italianos do bairro do Brás, todos seus irmãos eram músicos: Carlos tocava flauta e sax, Rute formou-se em piano e harmonia e Dirceu fez o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Começou a interessar-se por música aos 16 anos e aos 18 deixou a profissão de datilógrafo, para tocar piano em público pela primeira vez, apresentando-se num hotel em Poços de Caldas MG.
No mesmo ano venceu um concurso de música popular recebendo medalha de ouro com sua primeira composição, a marcha Isso mesmo é que eu quero. Em 1929, seu samba Deixei de ser otário foi incluído no filme Acabaram-se os otários (dirigido por Luís de Barros); essa foi sua primeira composição gravada, na Odeon, por Genésio Arruda. Por essa época, já fazia trabalhos de orquestração e enviou um samba para o Rio de Janeiro, Arranjei outra (com Dan Mallio Carneiro), que foi gravado por Francisco Alves em 1930. Isso o encorajou a dedicar-se somente à música, aperfeiçoando seus estudos de piano.
Em 1931 foi para o Rio de Janeiro, onde, por intermédio de Eduardo Souto, teve seu samba Silêncio gravado por Luís Barbosa e Vitório Lattari. Dois anos depois, o mesmo Eduardo Souto o apresentou a Noel Rosa no estúdio da Odeon. Ouvindo uma de suas composições, Noel aceitou a sugestão de Souto para fazer a letra, e dois dias mais tarde estava pronto o Feitio de oração, o primeiro dos seus sambas que teve Noel como letrista e que foi gravado em 1933, na Odeon, por Francisco Alves e Castro Barbosa.
Seguiram-no Feitiço da Vila, Provei, Quantos beijos e Só pode ser você. Musicou depois os versos de Noel Rosa: Conversa de botequim, Cem mil-réis, Tarzan (O filho do alfaiate), Pra que mentir e a Marcha do dragão (publicitária).
Por essa época, também atuou como pianista em diversas escolas de dança, e em 1934 foi contratado por Luís Americano para tocar na boate Lido, substituindo-o, posteriormente, na direção da orquestra. Quatro anos depois tocou durante alguns meses no Cassino Tênis Clube de Petrópolis RJ.
Em 1939 foi com a Orquestra Romeu Silva para os E.U.A., para atuar no pavilhão brasileiro da Feira Mundial de New York, estreando em junho. Permaneceu naquele país até novembro, tendo gravado transmissões para o Brasil na National Broadcasting Corporation. Retornou ao Brasil com Romeu Silva, passando a apresentar-se com a orquestra deste na Feira de Amostras do Rio de Janeiro.
Voltou a New York em abril de 1940, para a reabertura da Feira Mundial. Com o encerramento da mostra em outubro daquele ano, foi para Hollywood, onde se encontrou com Zé Carioca e passou a trabalhar na gravação das músicas do filme Uma noite no Rio (That Nightin Rio, de Irving Cummings), com Carmen Miranda.
No ano seguinte, a pedido da Universal Pictures, compôs para um filme o samba Ioiô, que teve letra de Nestor Amaral. Continuou como pianista de Carmen Miranda e do Bando da Lua, fazendo também várias orquestrações para filmes em que estes atuavam, como Weekend in Havana (Aconteceu em Havana, direção de Walter Lang, 1941) e Springtime in the Rockies (Minha secretária brasileira, direção de Irving Cummings, 1942), além de outros.
Em 1943 fez shows em teatros e night clubs, sendo convidado no mesmo ano por Walt Disney, que o pediu emprestado à Twentieth Century Fox por cinco dias, para musicar o desenho de longa metragem Saludos, amigos, em que o personagem Zé Carioca aparece como símbolo do Brasil.
Em 1944 participou de shows com Carmen Miranda e o Bando da Lua, apresentados nas bases da Marinha, em San Francisco, E.U.A. No ano seguinte atuou no restaurante Latin Quarter. Nesse mesmo ano de 1945, deixou de atuar com Carmen Miranda e o Bando da Lua, passando a integrar orquestras norte-americanas. Estudou harmonia, contraponto, composição musical, orquestração e regência, com Mario Castelnuovo-Tedesco (1895-1968).
Em 1948 acompanhou Carmen Miranda em sua temporada em Londres. Em 1949 entrou para a companhia da bailarina Katherine Dunham, como regente de orquestra, excursionando pelos E.U.A., Europa e América do Sul.
Em agosto de 1951 deixou a companhia em Kingston, Jamaica, e foi para New York trabalhar com uma orquestra cubana. Três anos depois, retornou ao Brasil definitivamente, atuando com Os Copacabana, na boate Casablanca, em 1956, passando depois a tocar piano somente em gravações e a fazer orquestrações para a Continental e a Rádio Mayrink Veiga.
No início de 1957 ingressou como diretor musical na TV-Rio, em substituição a Osvaldo Borba. No ano seguinte voltou a trabalhar com Os Copacabana, atuando no dancing Brasil e depois no Avenida. Em 1959 deixou Os Copacabana e foi para o Fred's, até que em janeiro de 1960 foi contratado pelo Sacha's.
Gravou em 1962 na etiqueta Festa o LP Festa dentro da noite. Seus principais parceiros foram Noel Rosa e Marino Pinto, este último letrista de Prece, que considerava sua obra-prima.
Obras
Cem mil-réis (c/Noel Rosa), samba, 1936; Conversa de botequim (c/Noel Rosa), samba, 1935; Feitiço da Vila (c/Noel Rosa), samba, 1934; Feitio de oração (c/Noel Rosa), samba-canção, 1933; Mais um samba popular (c/Noel Rosa), samba, 1934; Pra que mentir (c/Noel Rosa), samba, 1934; Prece (c/Marino Pinto), samba-prelúdio, 1958; Provei (c/Noel Rosa), samba, 1936; Quantos beijos (c/Noel Rosa), samba, 1936; Só pode ser você (c/Noel Rosa), samba, 1936; Súplica (c/Marino Pinto), samba-canção, 1956; Tarzã, o filho do alfaiate (c/Noel Rosa), samba, 1936.
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