sexta-feira, 18 de maio de 2007

Ney Matogrosso

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Ney Matogrosso

Ney Matogrosso (Ney de Souza Pereira), cantor, nasceu em 1º de agosto de 1941 em Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, e aos 17 anos entrou para a Aeronáutica, indo mais tarde trabalhar no laboratório de anatomia patológica do Hospital de Base de Brasília.

Pouco mais tarde começou a cantar em um quarteto vocal e participou de um festival universitário, depois do que enveredou para a carreira artística, querendo ser ator de teatro. Com esse objetivo foi para o Rio de Janeiro em 1966, onde virou hippie e passou a viver da venda de peças de artesanato. Trabalhou como iluminador na Sala Cecília Meireles. Fez a iluminação de vários grandes shows, como por exemplo, Paratodos, de Chico Buarque.

Em 1971 mudou-se para São Paulo, adotou o nome artístico Ney Matogrosso e passou a integrar o grupo Secos e Molhados, que, em apenas um ano e meio de vida, tornou-se um fenômeno, vendeu mais de um milhão de discos e se desfez. Ney projetou-se com o sucesso da banda, chamando a atenção por sua voz e por seu desempenho sempre teatral no palco.

Com o fim do grupo em 1974, seguiu uma carreira individual de sucesso, gravando então o LP Tercer mundo, pela Continental, mesma gravadora do LP Água do céu-pássaro, lançado no ano seguinte. Por essa época, fez shows no Rio de Janeiro e em São Paulo e trabalhou com Astor Piazzola em Milão, Itália, gravando um compacto duplo com ele e seu grupo. Ainda pela Continental lançou os dois LPs posteriores: Bandido (1976) e Pecado (1977). Pela WEA, lançou o LP Feitiço, em 1978.

No ano seguinte, com o show Seu tipo, pretendeu mudar a imagem andrógina e espalhafatosa, mas a tentativa não deu certo. Gravou o LP Seu tipo, WEA. Lançou em 1980 o LP Sujeito estranho, WEA. No ano seguinte, o disco Ney Matogrosso, Ariola, incluiu América do Sul (Paulo Machado) e Coubanakan (Moisés Simon, Sauvat e Champfleury) e ganhou um Disco de Ouro.

Em 1982 fez sucesso com o show Matogrosso, no Canecão, Rio de Janeiro, com destaque para Deixar você (Gilberto Gil) e Tanto amar (Chico Buarque). Gravou Matogrosso, Ariola.

Em 1983, já tendo lançado 8 LPs individuais, e recebido quatro prêmios, sendo dois Discos de Platina e dois Discos de Ouro, fez sua primeira tournee européia, que teve como ponto de partida o Festival de Jazz de Montreux (Suíça). Também nesse ano comemorou 10 anos de carreira, com o LP Pois é, Ariola.

Em 1984, numa iniciativa pioneira, alugou a lona do Circo Tihany e fez o espetáculo Destino de aventureiro, que ficou 5 meses em cartaz no Rio de Janeiro e depois correu o Brasil. Gravou pela Barclay o LP homônimo, que tambem recebeu Disco de Ouro e de Platina. Depois de dois anos sem gravar, voltou em 1986 com o LP Bugre.

Em 1990 lançou o disco A flor da pele, com Rafael Rabelo (Som Livre). A biografia Ney Matogrosso — um cara meio estranho, da jornalista Denise Pires Vaz, foi lançada em 1992-1993. Dirigiu o Prêmio Sharp de 1993, feito em homenagem a Ângela Maria e Caubi Peixoto. Em 1994 lançou As aparências enganam, com o grupo Aquarela Carioca (Polygram).

Em 1995 fez tournee pelo Brasil cantando o repertório de Ângela Maria, gravado no disco Estava escrito (Polygram). Gravou em 1996 Um brasileiro, disco dedicado a obra de Chico Buarque (Polygram). Em 1997 lançou pela Polygram o CD O cair da tarde, tributo a Villa-Lobos e Tom Jobim. Apresentou-se em shows de lançamento do CD com o pianista Leandro Braga e o grupo Uakti.
Confiram mais detalhes sobre este excelente intérprete da MPB em seu Site Oficial.
Algumas letras e músicas cifradas:
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Cândido Botelho

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Cândido Botelho (Cândido de Arruda Botelho), tenor, nasceu em São Paulo/SP em 24/2/1907 e falceu em 20/4/1955. Cursando o terceiro ano de direito, começou a estudar canto com Carlos Alves de Carvalho, no Rio de Janeiro.
Gravou em 1929 seu primeiro disco na Colúmbia com as modinhas Canção da felicidade (Barroso Neto) e Canção do violeiro (Lorenzo Fernandez). Com bolsa de estudos do governo do Estado de São Paulo, foi aluno de Vera Janacopulos em Paris, França, e de Morini, em Roma, Itália.
Intérprete preferido de Villa-Lobos em Paris, apresentou-se, em novembro de 1929, na sala Gaveau, ao lado de Monteiro da Silva e Leônidas Autuori, por ocasião da Semana Brasileira. De volta ao Brasil, exibiu-se ao lado da esposa, a pianista Maria do Carmo Monteiro de Arruda Botelho. Contratado pela Rádio Tupi no início da década de 1930, tornou-se conhecido como “A Voz Apaixonada do Brasil”. Como homenagem ao centenário de Carlos Gomes, gravou Mamma dice e Mon bonheur, desse compositor.
Em 1937, no Rio de Janeiro, atuou na Rádio Nacional e Rádio Jornal do Brasil, apresentando-se diariamente no programa A Hora do Brasil; em novembro de 1938, estreou no Teatro República e, no mês seguinte, na Rádio Mayrink Veiga. De 1931 a 1938, continuou a gravar canções populares na Columbia, como a embolada Passarinho verde (motivo popular), as modinhas Viola quebrada (Mário de Andrade), Quem sabe? (Carlos Gomes e Bittencourt Sampaio) e Conselhos (Carlos Gomes), além de algumas versões.
A partir de 1939 passou a gravar na Odeon, gravadora pela qual lançou em 1940 as marchas Fla-Flu (Haroldo Lobo e David Nasser) e Maria Antonieta (Haroldo Lobo e J. Cascata). Em setembro de 1939, na peça Joujoux et balangandans, de Henrique Pongetti, interpretou, entre outras canções, Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, passando a dedicar-se ao samba, sem abandonar o canto lírico.
A 16 de fevereiro de 1940 estreou no Cassino da Urca, ao lado de Aurora Miranda, Grande Otelo, Mesquitinha, Manuel Pera e Anjos do Inferno, em O circo, quadros de motivos nacionais. Em junho desse ano foi para os E.U.A., como representante da música brasileira na Feira Mundial de New York. Consagrado como A Voz do Brasil, foi contratado por dois meses pela National Broadcasting Company.
Em fevereiro de 1941 retornou ao Brasil e logo seguiu para Buenos Aires, Argentina, como contratado do programa Hora do Brasil, da Rádio Municipal, atuando, nessa ocasião, com a orquestra de Radames Gnatalli. Regressou ao Brasil em 1941, voltando a se apresentar na Rádio Tupi, de São Paulo, e em inúmeras cidades do Brasil e do exterior. Em julho de 1941 participou da segunda versão de Joujoux et balangandans, no Teatro Municipal, do Rio de janeiro, e gravou a valsa Canta, Maria, seu maior sucesso, e os sambas Cena da senzala e Brasil moreno, todas de Ary Barroso. Gravou, entre outras, Berceuse da onda, de Lorenzo Fernandez, e Canção brasileira, de Francisco Mignone.
Atuou nos filmes Maridinho de luxo (1938), de Luis de Barros, e Joujoux et balangandans (1939), de Amadeo Castellaneto, filmagem da primeira versão da peça, na qual interpretou seis quadros Abandonou a carreira artística em 1942 para só retomá-la no curto período de 1951 a 1952, quando gravou seis músicas pela Continental.
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Carmen Barbosa

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Carmen Barbosa, cantora, nasceu no Rio de Janeiro/RJ em 4/9/1912 e faleceu em 3/9/1942. Começou na Victor, como corista de gravações. Influenciada pelo estilo de Carmen Miranda, teve sua oportunidade quando, em 1934, foi chamada para substituir uma cantora. A partir daí, assinou contrato e passou a gravar.
Deixou 14 discos com 27 músicas, lançadas entre meados de 1935 e junho de 1940 na Columbia (1935), RCA Victor (1937), Odeon (1937) e Columbia (1937-1940). Foi muito apoiada por Benedito Lacerda, que com sua flauta está presente em quase todas as suas gravações, sendo o compositor da maioria das músicas interpretadas por ela.
Entre seus maiores sucessos estão Palmeira triste, samba-canção de Herivelto Martins, e No picadeiro da vida, samba de Herivelto Martins e Benedito Lacerda. CD: Orlando Silva, Carmen Barbosa e Araci de Almeida, 1991, Revivendo CD-012.
Excertos de uma entrevista concedida por Carmen Barbosa à revista Carioca, num dos seus números de 1938: "Foi na Victor que eu comecei. Era corista de gravações. Sempre tive ótimo ouvido e aprendia, com facilidade, os sambas lançados em primeira mão. Passei uma porção de tempo nessa vida. Não me davam nenhuma oportunidade. Aborreci-me lá. Vim para a rua... Vivi a vida amarga dos chômerus" (operários sem trabalho) do rádio. De estúdio em estúdio, cantando em audições experimentais, para diretores apressados e distraídos. Vida de cachorro, sabe?"
Um dia, em 1934, uma cantora, Madelou Assis, faltou e Carmen foi chamada para substituí-la. Assinou contrato, passou agravar. A entrevista termina: "em casa tem sete irmãs. Entretanto, os vizinhos nunca reclamaram. Ela, é a única que canta".
Fontes: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora; Revivendo Músicas - Biografias.
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PRK-30: A irreverência no ar

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PRK30
“É meu desejo que os senhores declarem pelo microfone desta emissora que a notícia que os matutinos desta tarde publicaram dizendo que foi preso o perigoso desordeiro Juliano Ferreira das Dores, não se refere absolutamente à minha pessoa. É bem verdade que eu me chamo Diomedes de Azevedo, mas quem não me conhece pode pensar perfeitamente que eu é que sou o tal Juliano Ferreira das Dores. Eu não quero confusões comigo. Muito agradeço. Assinado: Luis Maurício”.

O rádio brasileiro nunca mais foi o mesmo depois do dia 19 de outubro de 1944, data de estréia da PRK-30, o maior programa de humor no rádio da história do País, apresentado por Lauro Borges e Castro Barbosa.

Lauro e Castro faziam as vozes de mais de 25 personagens, sendo os principais Otelo Trigueiro, “o querido Tetelo das morenas inequívocas, das louras inelutáveis e até das morenas ferruginosas”, e Megatério Nababo d’Alicerce, um “português que se orgulha de ‘falar inglês em vários idiomas’”.

Em setembro de 1946, a PRK-30 passou a ser transmitida na Rádio Nacional, onde alcançou o auge do sucesso, com 52% da audiência do País em 1947. Com um humor simples, ingênuo, sem apelações, todas as sextas-feiras, às 20h30, a família se reunia para ouvir a PRK-30. O humor de Lauro e Castro utilizava bastante trocadilhos, muito comuns na época, além do nonsense, que hoje em dia poderia até ser sem graça. Mas o talento dos humoristas consegue se manter ao longo do tempo e fazer com que os ouvintes de hoje ainda consigam rir daquelas piadas.

Com novelas como “Só morra em Godoma” e programas como “A Hora da Ginasta”, a PRK-30 teve tanto sucesso que ficou 20 anos no ar, de 1944 a 1964. O jornalista Artur da Távola comenta em um artigo o segredo do sucesso da PRK-30: “Primeiro, o besteirol absoluto e sem compromissos ou engajamentos políticos partidários. Depois, a qualidade das tiradas, originais, divertidas (além de) uma sátira formidável dos cacoetes do rádio da época em forma de caricatura tanto vocal (dos dois) como através do texto direto e escorreito do programa".

Fonte: O Trem da Alegria

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Castro Barbosa

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Castro Barbosa (Joaquim Silvério de Castro Barbosa), cantor e humorista nasceu em Sabará/MG em 07/05/1905 e faleceu no Rio de Janeiro/RJ em 20/04/1975. Em 1931, quando trabalhava no Lóide Brasileiro, fez um teste na Rádio Educadora, do Rio de Janeiro, sendo apresentado a Almirante, que o convidou a participar de um programa.
Na emissora ficou conhecendo Noel Rosa, Custódio Mesquita, Nonô e Francisco Alves. Convidado pelo compositor André Filho, gravou seu primeiro disco em fevereiro de 1931, com a marcha Uvinha (André Filho) e o samba Tu hás de sentir (Heitor dos Prazeres), pela Parlophon. Gravou também, na Brunswick, o samba Tá de mona (Maércio e Mazinho), com o Bando da Lua.
Por essa época, conheceu Jonjoca (João de Freitas Ferreira), com quem formou uma dupla para concorrer com Mário Reis e Francisco Alves. Levado por Paulo Neto para a gravadora Victor, foi apresentado ao diretor artístico Rogério Guimarães. Nessa gravadora lançou, em 1931, Sinto falta de você e A cana está dura, ambas de Jonjoca e gravadas pela dupla, seguindo-se mais 20 gravações até 1933.
Lançou a rumba Aqueles olhos verdes (Menendez, versão de João de Barro), em 1932; os sambas Vou pegá Lampião (J. Tomás) e Carioca, e o fox-samba Flor de asfalto (ambas de J. Tomás e Orestes Barbosa), em 1933. Para o Carnaval de 1932, gravou a marcha O teu cabelo não nega (Irmãos Valença e Lamartine Babo), que se transformou num dos maiores sucessos carnavalescos de todos os tempos, e Passarinho... passarinho (Lamartine Babo).
A partir daí foram vários os seus sucessos carnavalescos, como, em 1937, Lig-lig-lig-lé (Osvaldo Santiago e Paulo Barbosa); em 1942, Praça Onze (Herivelto Martins e Grande Otelo) e, em 1943, China pau (João de Barro e Alberto Ribeiro). Outras gravações de destaque foram a marcha A maior descoberta (Índio), em dupla com Almirante, no Carnaval de 1934; a marcha Vou espalhando por aí, em dupla com Carmen Miranda, em 1935; a valsa Dona Felicidade (Benedito Lacerda e Nestor Tangerini), em 1937; e a canção Festa iluminada (Gomes Filho), em 1942.
De 1931 a 1951, em 78 rpm, gravou cerca de 82 discos, com 148 músicas, sendo poucas as gravações depois de 1944. Trabalhou em várias estações de rádio, mas sua grande oportunidade nesse meio surgiu no Programa Casé, da Rádio Philips. Em 1937 foi convidado por Renato Murce para substituir o ator Artur de Oliveira no Programa Palmolive, da Rádio nacional, ao lado de Dircinha Batista e Jorge Murad, atuando como cantor e humorista.
Continuou nessas duas atividades e foi convidado por Lauro Borges para fazer programa que marcaria época na história do rádio brasileiro, o PRV-8, depois PRK-30, levado ao ar na Rádio Mayrink Veiga, na Rádio Clube do Brasil e, mais tarde, em São Paulo SP com o nome de PRK-15. Nesse programa ficou famoso com a caracterização de português.
Com o advento da televisão passou para a TV Paulista por mais quatro anos e , retornando ao Rio de Janeiro em 1959, lançou na TV-Rio o programa Só Tem Tantã, com Chico Anísio no papel principal, mais tarde transformado em quadro do Chico Anísio Show. Chico Anísio e Sérgio Porto escreviam e apresentavam quadros humorísticos em seu programa, entre os quais ficaram famosos "Feira livre", "Só tem tantã" e "Coral dos Bigodudos".
Durante oito meses atuou no programa de Renato Murce na TV-Rio, fazendo "As piadas do Manduca" (também um antigo programa de sucesso na época do rádio), "Seu Ferramenta" e a "PRK-30".
Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora.
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Cauby Peixoto

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Cauby Peixoto

Cauby Peixoto (Caubi Peixoto Barros), cantor, nasceu em Niterói-RJ, na Rua Joaquim Norberto, bairro de Fonseca, em 10/2/1934. De família de artistas populares, o pai, conhecido por Cadete, tocava violão, a mãe tocava bandolim, o tio, Nonô (Romualdo Peixoto) era pianista e homem de rádio, o primo Ciro Monteiro foi cantor e compositor famoso, os irmãos Moacir e Araquém tornaram-se instrumentistas e a irmã Andiara foi cantora.
Estudou num colégio de padres salesianos no Rio de Janeiro, e já no tempo de estudante cantava no coral da igreja. Mais tarde, quando trabalhava no comércio, apresentou-se no programa de calouros da Rádio Tupi, Hora dos Comerciários, patrocinado pelo SESC e dirigido pelo pianista Babi de Oliveira, conseguindo então chamar a atenção da Revista do Rádio, em 1949.
Cantou também no conjunto de seu irmão Moacir, na boate carioca Casablanca e, em 1951, gravou seu primeiro disco, pela Som, lançando o samba Saia branca (Geraldo Medeiros), para o Carnaval. Em 1952, mudou-se para São Paulo, passando a cantar nas boates Oásis e Arpège, e na Rádio Excelsior, destacando-se sempre com repertório de músicas estrangeiras.
Por volta de 1954, foi ouvido pelo empresário Di Veras, que, pretendendo renovar o elenco da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, então dominado por ídolos como Emilinha Borba e Orlando Silva, o convidou para atuar naquela emissora. Seu lançamento na rádio foi preparado nos moldes norte-americanos, com grande publicidade e muita promoção, e, em pouco tempo, ele também se tornaria um ídolo, adorado e perseguido pelas fãs.
Sua imagem foi forjada para agradar: vestindo-se de maneira extravagante para a época, e colocando trinados e versos inexistentes em suas canções, criou um tipo diferente, obtendo sucesso imediato.
Ainda em 1954, gravou com êxito o fox Blue Gardenia (Bob Russel e Lester Lee, versão de Antônio Almeida e João de Barro) e, nos cinco anos seguintes, foi considerado o cantor mais popular do país.
Em 1956 gravou em disco de 78 rpm, pela Columbia, Conceição (Jair Amorim e Dunga), que se transformou no maior sucesso de seu repertório. Da Rádio Nacional, passou para a Rádio Tupi e gravou Nono mandamento (René Bittencourt e Raul Sampaio), em 1957; Prece de amor (René Bittencourt), em 1958; Ninguém é de ninguém (Humberto Silva, Toso Gomes e Luís Mergulhão) e É tão sublime o amor (P. Francis Webster e Sammy Fain, versão de Antônio Carlos).
Depois de aparecer na revista norte-americana Time como o maior ídolo da canção popular brasileira, foi convidado para uma excursão aos E.U.A., onde gravou, com o nome de Ron Coby, um LP com a orquestra de Paul Weston, cantando em inglês. De volta ao Brasil, comprou, em sociedade com os irmãos, a boate carioca Drink, passando a se dedicar mais a administração da casa e interrompendo, assim, suas apresentações.
Em 1959, retornou aos E.U.A. para uma temporada de 14 meses, durante os quais realizou espetáculos, apresentou-se na televisão e gravou, em inglês, Maracangalha (Dorival Caymmi), que recebeu o titulo de I Go. Numa terceira visita aos E.U.A., algum tempo depois, participou do filme Jamboree, da Warner Brothers.
Durante toda a decada de 1960, limitou-se a apresentações em boates e clubes. Em 1970 reapareceu como vencedor do Festival de San Remo, na Itália, classificando em primeiro lugar a música que defendeu, Zingara (R. Alberteli, versão de Nazareno de Brito). Em 1971 participou do VI FIC da TV Globo, no Rio de Janeiro, cantando Verão vermelho (Sergio Ferreira da Cruz).
A partir da década de 1970, passou a se apresentar em programas de televisão no Rio de Janeiro, e a realizar pequenas temporadas em casas de diversão noturnas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em 1979 apresentou-se também em Vitória-ES e Recife-PE, no Projeto Pixinguinha da Funarte, ao lado de Zezé Gonzaga.
Em 1980, em comemoração aos 25 anos de carreira, lançou pela Som Livre o disco Caubi, Caubi, com músicas feitas especialmente para ele por Caetano Veloso (Caubi, Caubi), Chico Buarque (Bastidores), Tom Jobim (Oficina), Roberto e Erasmo Carlos (Brigas de amor) e outros. No mesmo ano, apresentou-se nos shows Bastidores, da Funarte, Rio de Janeiro, e Caubi, Caubi, os bons tempos voltaram, na boate Flag, São Paulo.
Em 1982 apresentou no 150 Nigth Club, em São Paulo, ao lado dos irmãos Moacir (piano) e Araken (piston) e lançou o LP Ângela e Caubi, o primeiro encontro dos dois cantores em disco, com sucessos como Começaria tudo outra vez (Gonzaguinha), Recuerdos de Ypacaraí (Z. de Mirkin e Demétrio Ortiz) e a valsa Boa noite, amor (José Maria de Abreu e Francisco Matoso).
Em 1989, os 35 anos de carreira foram comemorados no bar e restaurante A Baiúca, em São Paulo, ao lado dos irmãos Moacir, Araquen e Iracema e Andiara (vozes). No mesmo ano, a RGE relançou o LP Quando os Peixotos se encontram, de 1957. Em 1993 foi o grande homenageado, ao lado de Ângela Maria, no Prêmio Sharp de Música. Em 1996, foi lançada pela Columbia caixa com 2 CDs abrangendo suas gravações de 1953 a 1959, com sucessos como Conceição.
É considerado "o maior cantor do Brasil" por personalidades como Roberto Carlos, Emílio Santiago, Cid Moreira, Jô Soares, Aracy Balabanian, José Messias e tantos e tantos outros colegas seus. É, também, tratado carinhosamente pelos colegas de "O Professor", o que caracteriza respeito e admiração. CD: Caubi Peixoto (2 CDs), 1996, Columbia 729.046/2- 479285.
Algumas letras e cifras:
Fontes: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora; Geraldo Freire - Biografia de Cauby Peixoto.
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Nonô

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Nonô (Romualdo Peixoto), pianista e compositor, nasceu em Niterói/RJ em 7/2/1901 e faleceu em 13/11/1954. Sem nunca haver estudado música, aos nove anos já se apresentava em um clube, tocando piano.
Tio do sambista Ciro Monteiro, do pianista Moacir Peixoto, do trompetista Araquém Peixoto e do cantor Cauby Peixoto, em 1929 passou a integrar a Orquestra Brunswick, liderada pelo baterista J. Tomás.
No início da década de 1930, participou de diversos conjuntos e orquestras. Com Djalma Guimarães (trompete), Ismerino Cardoso (trombone), Valfrido Silva (bateria), Luperce Miranda (cavaquinho e bandolim), Tute (violão) e Custódio Mesquita (piano), integrou a orquestra que acompanhava as apresentações de Francisco Alves e Mário Reis, no Teatro Lírico, no Rio de Janeiro.
Atuava também na Rádio Philips, no Programa Casé, acompanhando os grandes cartazes do rádio, entre os quais Sílvio Caldas, Luís Barbosa, Noel Rosa e Marília Batista. Em 1932, com Noel Rosa, Mário Reis e Francisco Alves, excursionou a Porto Alegre/RS, onde se exibiu no Cine-Teatro Imperial. Nessa viagem, compôs com Noel Rosa o samba Vitória, criticando o cantor Francisco Alves, que não ficou ofendido e até participou do coro, quando a composição foi gravada por Sílvio Caldas, na Victor, em 1933.
Em 1932 gravou disco na Columbia, interpretando ao piano o choro de sua autoria Uma farra em Campo Grande. Participou depois da gravação de centenas de discos, como pianista de diversos conjuntos de estúdio, entre os quais Bambas do Estácio, Orquestra Copacabana (da Odeon), Gente Boa (da Odeon) e Gente do Choro.
Em 1933, embora seu nome não apareça no selo, acompanhou Mário Reis no disco da Columbia que incluía os sambas Esquina da vida (Noel Rosa e Francisco Matoso) e Meu barracão (Noel Rosa). Também de 1933 são vários discos da Odeon em que acompanhou cantores famosos da época, como Mário Reis, em Mulato bamba, de Noel Rosa; Francisco Alves, em Tristezas não pagam dívidas, de Ismael Silva; a dupla Mário Reis e Francisco Alves, em Estamos esperando, de Noel Rosa, e Rir, de José de Oliveira; Noel Rosa, em seu próprio samba Arranjei um fraseado; etc.
No ano seguinte, seu nome constou como pianista no selo de um disco da Victor com os sambas Alô, Moçoró! e Cheio de saudade (ambos de Mário Travassos de Araújo) interpretados por Sílvio Caldas e Luís Barbosa.
Como compositor, fez Perto do céu (com Francisco Matoso) gravado por Silvinha Melo, na Victor, em 1935; Vai-te embora (letra de Francisco Matoso), gravado por Mário Reis para o Carnaval de 1936, e ainda as valsas Cigana (com Paulo Roberto), gravada por Sílvio Caldas, na Odeon, em 1937; e Jardim das flores raras (com Francisco Matoso), gravada por Roberto Paiva, na Odeon, em 1938.
Apelidado por César Ladeira de O Chopin do Samba, atuou sobretudo nas décadas de 1930 e 1940, quando foi um dos mais destacados pianistas de samba, com execuções que marcaram época, pelo sentimento, emotividade e intuição.
Na década de 1950, já afastado dos meios musicais, foi funcionário da Secretaria da Viação e Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro. Em 1954, pouco antes de morrer, doente e sem recursos, foi homenageado num festival, promovido em Niterói por artistas do rádio e do disco. Em 1957, o pianista Fats Elpídio gravou na Victor o LP de dez polegadas Recordando Nonô.

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Tim Maia

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Tim Maia

Tim Maia (Sebastião Rodrigues Maia), cantor e compositor, nasceu nasceu no Rio de Janeiro RJ em 28/9/1942 e faleceu em 15/3/1998. Penúltimo de 19 irmãos, aos oito anos já compunha suas primeiras musicas. Aos 14 anos, formou seu primeiro conjunto musical, Os Tijucanos do Ritmo, no qual tocava bateria, e que durou apenas um ano.
Começou a estudar violão num curso particular e formou em 1957 o conjunto Os Sputniks, que tinha também entre seus integrantes Erasmo Carlos e Roberto Carlos, tendo sido professor de violão de ambos.
Em 1959, antes de completar 17 anos, com a morte do pai, foi para os EUA, onde fez cursos de inglês e iniciou carreira como vocalista, participando de um conjunto chamado The Ideals. Permaneceu nos EUA ate 1963, quando foi preso por portar maconha. Após seis meses de prisão e dois meses de espera, foi deportado para o Brasil.
Seu primeiro trabalho solo foi um compacto pela CBS em 1968, que trazia as musicas Meu país e Sentimento (ambas de sua autoria, como todas as músicas sem indicação de autor). Sua carreira no Brasil fortaleceu-se a partir de 1969, quando gravou um compacto simples pela Fermata com These are the Songs (regravada no ano seguinte por Elis Regina em duo com ele, e incluída no LP Em pleno verão, de Elis) e What You Want to Bet.
Em 1970 gravou seu primeiro LP, Tim Maia, na Polygram, que permaneceu em primeiro lugar no Rio de Janeiro por 24 semanas. Os principais sucessos desse disco foram Coroné Antônio Bento (Luís Wanderley e João do Vale), Primavera (Cassiano) e Azul da cor do mar.
Nos três anos seguintes, pela mesma gravadora, lançou os discos Tim Maia volume II com Não quero dinheiro (Só quero amar), Tim Maia volume III e Tim Maia volume IV, no qual se destacaram Gostava tanto de você (Edson Trindade) e Réu confesso. Em 1975 gravou os LPs Tim Maia racional vol. 1 e vol. 2. Em 1978 gravou para a Warner Tim Maia Disco Club, com um de seus maiores sucessos, Sossego.
Lançou em 1983 o LP O descobridor dos Sete Mares, com destaque para a música-titulo e Me dê motivo (Sullivan e Massadas). Outro disco importante da década de 1980 foi Tim Maia (1986), que trazia Do leme ao Pontal.
Artista com histórico de problemas com as gravadoras, na década de 1970 fundou seu próprio selo, primeiramente Seroma e depois Vitória Regia. Por ele, lançou em 1990 Tim Maia interpreta clássicos da bossa nova, e mais tarde Voltou a clarear e Nova era glacial.
Em 1993, dois acontecimentos reimpulsionaram sua carreira: a citação feita por Jorge Ben Jor em sua música W/Brasil e uma regravação que fez de Como uma onda (Lulu Santos e Nelson Mota) para um comercial de televisão, de grande sucesso e incluída no CD Tim Maia, do mesmo ano. Assim, aumentou muito sua produtividade nesta década, gravando mais de um disco por ano com grande versatilidade: seu repertório passou a abranger bossa nova, canções românticas, funks e souls. Também teve muitas de suas musicas regravadas por artistas jovens, como Paralamas do Sucesso, Marisa Monte e Skank.
Em 1996 lançou dois CDs ao mesmo tempo: Amigo do rei, juntamente com Os Cariocas, e What a Wonderful World, com recriações de standards do soul e do pop norte-americanos dos anos de 1950 a 1970. Em 1997 lançou mais três CDs, perfazendo 32 discos em 28 anos de carreira.
Em março de 1998 sentiu-se mal durante a gravação de um show para a TV e faleceu após internação hospitalar em razão de infecção generalizada.
Algumas letras e cifras:

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e PubliFolha
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A Festa da Penha 2

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Festa da Penha

A Festa da Penha - Por Melo Moraes Filho

Na obscuridade mais densa os tempos coloniais aninha-se a fundação da primitiva ermida de Nossa Senhora da Penha, que, da altura de seus trezentos e sessenta e cinco degraus, talhados no granito, dominava parte da baía do Rio de Janeiro, da cidade e dos subúrbios.
Posteriormente reedificada, mas não fundada, como pretendem alguns cronistas, pelo padre Miguel de Araújo, esse templo tem passado por modificações diversas, sendo todavia respeitados os símbolos religiosos, que nos permitem corrigir a história cotejando a lenda.
Por menos indagador que seja o peregrino ou devoto que transpuser o limiar daquela igreja, há de forçosamente, erguendo o olhar ao altar-mor, impressionar-se à vista de uma grande cobra e de um lagarto esculpidos, que, acima do nicho da excelsa padroeira, destacam-se no muro alvo da capela, com um colorido de bronze e um relevo natural.
E isso nos aconteceu, o que conduziu-nos a pesquisas diretas, interrogando a antigos habitantes do lugar sobre aquela estranha reprodução da arte. O mais velho dentre eles, por antonomásia João Cangulo, homem de oitenta anos presumíveis, ali nascido e criado, referiu-nos o que de seus pais ouviu a respeito, prestando apoio às suas palavras não só um negro de barbas e cabelos brancos com quem estava, porém outras pessoas da redondeza.
E assim recolhemos da tradição oral a lenda da fundação da ermida de Nossa Senhora da Penha, que se resume numa história simples e selvagem, de perfeito acordo com o cenário bárbaro que nos cercava e com os animais bizarros que figurou o artista.
Eis a lenda:Em tempos que lá vão distantes, ousado caçador que batia aquelas matas, em busca de caça, foi surpreendido por uma cobra gigantesca, que, roncando feroz e desenrolando-se no espaço, ameaçava devorá-lo; tomado de espanto, lívido de terror, arrepiam-se-lhe os cabelos, suor viscoso poreja-lhe à fronte, a arma lhe cai, e ele, dobrando o joelho na terra, erguendo as mãos súplices ao céu, exclama num brado saído d’alma:- Valha-me, Nossa Senhora da Penha!
No mesmo instante um lagarto indolente, que aquecia ao sol a cabeça chata, salta de uma pedra, e açoutando com a cauda de ferro o réptil medonho, o afugenta, deixando livre do perigo o infeliz para quem a morte seria inevitável.
Desperto como de um pesadelo, reconhecendo que fora salvo por estupendo milagre, o caçador erigiu na crista do rochedo a ermida votiva de Nossa Senhora da Penha, vindo todos os anos em contrita romaria oferecer à sagrada imagem o tributo de suas dádivas e o eco de seus louvores.
Nas romarias da Penha o elemento predominante foi sempre o português. Desde o período colonial até hoje, a tradição tem sido mantida como uma recordação das festas congêneres da antiga metrópole, notando-se porém que os foliões aqui eram na generalidade filhos do continente.
A essas peregrinações anuais concorria apenas uma certa classe de portugueses incultos, de homens e mulheres destinados a trabalhos rudes, o que não impedia de ser a festa popular da mais útil e opulenta das nossas colônias.
Os brasileiros da localidade ou de pontos mais afastados associavam-se em parte aos folguedos, contribuíam para o culto, formando-se muitas vezes grupos em separado no arraial – já de portugueses entre si, já de nacionais.
O que cumpre acentuar é que a iniciativa, o aparato, o entusiasmo, a verdadeira característica (e por isso tem durado), não nos pertenciam. A romaria da Penha era estrepitosa e alegre. Basta especificar a classe que fornecia os romeiros do primeiro plano para compreender-se que as profanações e os desvios não marcavam as intenções religiosas, que ficavam intactas.
A festa e a peregrinação tinham seus preâmbulos, seus comemorativos, dando margem a estabelecerem-se semelhanças com as nossas ou palpitantes diferenciações. Com os repiques das novenas anunciavam-se os preparativos.
Antes mesmo, viam-se pelo mato lenhadores que, por mando dos festeiros, cortavam longas varas, despiam-lhes as folhas, aparelhavam para o fabrico das tendas e barracas, paus de bandeira e galhardetes, habituais aos festejos.
De nove dias com antecedência, porém, era que tudo se dispunha, se aprontava com a urgência precisa e o capricho reclamado pela pomposa romaria, cuja fama tradicional aumentava-lhe a influência. Como por encanto o pitoresco arraial transformava-se; o garrido templo enfeitava-se com esplendor; era lavado em toda a sua extensão para realizarem-se promessas; e as casas dos romeiros, à esquerda da escadaria de pedra, começavam a receber trastes e objetos dos alugadores múltiplos, que obtinham as chaves por valiosos empenhos.
Na sacristia da formosa igreja o sacristão andava numa roda viva. Corria daqui para acolá, já atendendo aos portadores de promessas, já colocando em seus devidos lugares os milagres de cera, de ouro e de prata, as velas e painéis votivos que a gente da redondeza trazia nas vésperas do dia solene.
No arraial, de sol a sol, trabalhava-se sem tréguas, sem descanso. As barracas de comidas e bebidas como que brotavam da terra, surgiam umas após outras, debaixo das copadas mangueiras do terreiro e ao longo da estrada. Adornadas de bambinelas cobertas de aniagem, enfeitadas de folhas verdes, do teto balançavam escolhidas amostras dos gêneros em que negociavam, estendendo-se ao alto da estrada vistosos dísticos, que serviam de reclame ao povo miúdo.
De vez em quando, um molecote ou um preto velho, guiando um carro-de-bois, crescia na estrada, vindo trazer às barracas vinhos e comestíveis, magníficas frutas, ocupando o lugar de honra as saborosas melancias, abundantíssimas na localidade. Bandeiras troféus, galhardetes, escudos de papelão pintado, porta-girândolas, arandelas e copinhos de cores contornando as árvores, era o que se via com profusão pasmosa, dando ao espetáculo um aspecto magnífico e sem igual nas demais festas.
À missa do domingo que precedia a romaria, homens, mulheres e crianças, cheios de fé, subiam de joelhos a escada estreita aspérrima da Penha, cumprindo sagrados votos feitos à miraculosa Virgem nas horas aflitas da moléstia, do perigo e do infortúnio.
Era belo ver-se a piedade daqueles tempos; comovia até às lágrimas aquela procissão de escravos e senhores, de deformados e infelizes, cada um com sua oferenda, povoando por longos dias os degraus de pedra que conduziam à casa de Deus, indo render graças à Senhora da Penha, porque lhes trouxera a serenidade nos sofrimentos e o remédio a seus males.
Eram tantos os que deixavam uma lembrança palpável de seu extraordinário poder!... Quantos quadros representando curas milagrosas, navios escapos ao naufrágio e centenas de outros prodígios lá estão para atestar que a ciência humana não vale uma sombra de confiança na misericórdia divina!...A igreja conservava-se aberta dias inteiros, ao passo que outros preparativos para a romaria executavam-se na cidade e nas povoações circunvizinhas ou remotas.
Unido ao espírito altamente religioso, o elemento popular estava em cena do modo mais franco e significativo. Em Inhaúma, na Pavuna, em Irajá, em Meriti, em Campo Grande, na Ilha do Governador, etc., os fazendeiros e suas famílias, os pequenos lavradores e os escravos suspiravam pela função.
Os pescadores amarravam à praia as suas canoas e faluas; os lanchões e os barcos a vapor achavam-se designados e os lindos cavalos de sela, ferrados e tratados, aguardavam o momento da viagem à Penha.
Com uma abóbada de esteiras novas os carros-de-bois descansavam nos terreiros o varal e a canga; e os moleques e meninos brincavam ensaiando-se para a jornada. Na cidade, as vilas e cortiços andavam numa dobadoura. As Marias e os Manéis esqueciam-se das tinas de roupa e das carroças, tirando das arcas as arrecadas de ouro, que escovavam, e os uniformes brancos, que estendiam sobre cadeiras ou penduravam nas cordas para arejar.
Desde à véspera o movimento local fazia-se notar. Chegavam à Penha famílias da roça, as casas dos romeiros estavam repletas, os foguetes estouravam de instante a instante, e à noite a igrejinha embandeirada, iluminados a fachada e o gradil do mirante circular, avultava à léguas, refletindo na calva da rocha borboletas de luz, pousadas ou alígeras.
No almejado dia, logo ao amanhecer, em Maria Angu e Fazenda Grande, especialmente, desembarcavam inúmeras pessoas da cidade, turbilhões de roceiros tafulos, gente enfim para assistir à festa, trazer promessas, divertir-se. Da varanda aérea do templo o mais belo panorama desdobrava-se às vistas do espectador maravilhado, pois a variedade das cenas não tinha termo, cada qual mais original e interessante.
No mar as canoas e embarcações ligeiras desfloravam garbosas as ondas tranqüilas; os remos espelhavam ao sol rompendo d’água; os vivas e a foguetaria feriam o éter sonoro de cantigas; e os lenços brancos agitavam-se de uma para outra banda, ao alarido dos romeiros que saltavam em terra.
Nas estradas de rodagem, na rede dos caminhos, carros-de-bois rangiam, conduzindo famílias; lustrosas cavalgadas trotavam largo; caminheiros sem conta marchavam fatigados suarentos e empoeirados.No Pedregulho e nas ruas mais próximas à passagem obrigada aos sítios da Penha, só se viam espectadores atentos ao desfilar dos romeiros, especialmente da portuguesada festiva que seguia da corte em carruagens enfeitadas, em carroções e andorinhas tiradas a duas parelhas, em cavalos magros e de aluguel.
- Viva a Penha!...Viva a Penha!...Eram as vozes que enchiam desde às nove horas as ruas da cidade, ao desconcerto de uma música importuna e continuada, ou à cadência de rabecas, violas e pandeiros acompanhando trovas populares.
Nisso aparecia uma andorinha a galope, guarnecida de apanhados de fazenda de cores, verdejante de folhagens, com os animais enfeitados de rosas de pano na cabeçada, conduzindo foliões de ambos os sexos, vestidos de branco, de chapéu de palha desabado e flamejante de fitas.
Os rapazes ostentavam a tiracolo enorme e pesado chifre chapeado de prata e cheio de vinho; no braço enfeitavam as clássicas roscas da romagem, secundados pelas rechonchudas e afogueadas Marias Rosas, que, adiantando-se, pendidas para fora, arrebatadas pela velocidade e juntando as mãos à boca, gritavam: - Viva a Penha!
E os foliões, de pé, agitando os braços, crescendo de todo o corpo, respondiam no mesmo diapasão: - Viva a Penha!Mais de espaço, um, dois, três, muitos outros carros, aqui e além, partiam na mesma direção, molhando o Sor Zé ou o Sor Antônio a palavra vibrante com um gole da boa pinga, e as suas companheiras igualmente.
Em meio da excursão o entusiasmo atingia a seu auge, e o fadinho ou a caninha verde faziam-se ouvir, quebrando a monotonia da romagem. E a rabeca e a viola, tangidas por mãos afeitas, davam o tom a descantes pátrios, sempre bonitos, apesar de incultos.
"Ó minha canina berde,
Ó meu santo de padrão,
Por amor de uma menina
Fui cair no alçapão.

Cana berde salteada,
Salteada é mais bonita,
Pra cantar a cana berde
Não se quer folhos de chita.

Fui-me ao Porto, fui-me ao Minho,
De caminho para Braga,
Dizei-me, minha menina,
Que quereis qu’eu de lá traga."
Dos cercados as moças davam gostosas risadas, cochichavam, comentavam as toilettes; os meninos e os moleques atiravam olhares cobiçosos para as roscas, enquanto os patuscos, levantando a perna, galhofando, declamando, emborcavam os chifres que voltavam enxutos.
Solitário em seu pangaré, escanchado, apegando-se com freqüência ao Santo Antônio do selim, de quando em quando um romeiro atravessava a cena, com o mesmo vestuário e acessórios. Pacato e despretensioso, as suas aspirações eram unicamente apercebidas pelos "vivas à Penha", que soltava raros, aos solavancos do cavalo tardo e desobediente. A romaria era esplêndida...
Pelas duas horas da tarde, a festa estava em meio; os ranchos acampados nas ondulações vastas, à sombra das mangueiras. Encostados às vendas e às barracas, foliões que apeavam das andorinhas e muitos dos que lá se achavam, preludiavam as suas toadas, suas danças nacionais, pulando logo após no caminho. E a cana-verde, a chama-rita, o fadinho, o vai-de-roda ferviam sapateados, não sendo dispensados os desafios graciosos e brejeiros.
O mulherio saracoteava, batia palmas a compasso, pinoteava com seus pares, alguns dos quais, um tanto chumbados, esfregavam as primas da viola, davam breu nas cordas da rabeca, palheteavam os cavaquinhos, recomeçando trovas e dançados, emendando a roda:

"Chama-rita de meu peito,
Quem quer bem tem outro jeito..."
Os comes e bebes em esteiras desdobrados sob os arvoredos, na relva e nas barracas, as saúdes amistosas trocadas nos círculos de famílias e peregrinos que se divertiam de modo mais calmo, difundiam-se pelo acampamento em regozijo, prolongando-se até mais tarde.
Os carros tirados por juntas de bois avançavam nas estradas trazendo festivos matutos. As crioulas baianas sambavam debaixo das mangueiras aromáticas e embandeiradas dos panos-da-costa que suspendiam aos galhos, e os veículos de toda a espécie sulcavam as trilhas com os impagáveis e entusiásticos protagonistas da jornada da Penha.
Finda a cerimônia religiosa da manhã, principiava a debandada. Os acampamentos levantavam-se progressivamente, e, pela tarde adiante, as andorinhas, os carros enfeitados e os cavaleiros caricatos faziam sua entrada na cidade, entre "vivas" e incrível alvoroço.
Cada romeiro empunhava o seu registo de Nossa Senhora da Penha, ostentando uma verônica pregada no peito de casaco branco. No Arraial da Penha, por ocasião do Te-Deum, a nossa gente cantava ao largo as suas tiranas.
Trovadores dos sertões do Norte achavam-se naquelas paragens, muitos deles mulatos e crioulos escravos. Aqui, era uma quadrinha improvisada à viola e alentada de ciúme:

"Eu tomara me encontrá,
Com Manué Passarinho!...
Que quero cortar-lhe as asas,
Tocar-lhe fogo no ninho..."
Mais longe, uma despedida, um debruçar d’alma no passado, um verso plangente e dolorido:

"Vou-me embora, vou-me embora,
Como se foi a baleia,
Levo penas de dexá
Marocas na terra aeia"
E lá para as bandas de São Cristóvão, montado num burro de carroça, estafado e manco, zabumbando-lhe com os calcanhares na barriga, sumindo-se na treva, o último Abencerrage, arrancando de dentro um – viva à Penha! – mastigava para distrair-se quadrinha simples e expressiva:
"Dizes que viva Lamego,
Viva também Lameguinho,
E viva a terra do Porto
Onde se bebe o bom vinho."
Às cusparadas de fogo da locomotiva, a clássica romaria da Penha tem perdido parte de seu caráter devoto e de sua antiga influência. Entretanto muitíssimos são ainda os romeiros que afrontam mesmo a pé, léguas e léguas de distância, no arriscado das matas, fiéis à tradição.
Como romaria popular é a única que ainda se conserva no Rio de Janeiro. Representa no ideal o tipo de certos costumes coloniais, modificados nas províncias, outrora, quando o nativismo era uma virtude e este país o Brasil.
Fontes: MORAES FILHO, Melo - Festas e tradições populares do Brasil.
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A Festa da Penha

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Festa da Penha 2
Festa da Penha, 1912: Em primeiro plano, de pé, da esquerda para a direita, João Pernambuco, de chapéu branco, segurando o violão, Patrício Teixeira, de terno branco, Pixinguinha, com a flauta, e Caninha, com o cavaquinho.

O grande pólo agregador dos sambistas era a Festa da Penha, organizada no Rio de Janeiro pela comunidade portuguesa para comemorar o dia da Natividade de Nossa Senhora, no fim do século XVIII e que acabou apropriada pelos baianos e sambistas cariocas.
Mantinha seu caráter religioso, com missas e pagamentos de promessas católicos, mas aos poucos cerimônias do candomblé foram sendo introduzidas e os sambistas faziam das barracas das “tias” baianas seus pontos de encontro. Ali, comiam bem, ouviam o canto das mulheres que cozinhavam, e os malandros jogavam capoeira, armavam suas rodas de samba em meio a generosas doses de aguardente. O que levantava a temperatura e, muitas vezes, acabava em conflito, com intervenção violenta da polícia, sempre à procura de motivo para reprimir samba e sambistas.
Com o tempo, músicos e grupos profissionais passam a freqüentar a Festa, e concursos musicais com prêmios são organizados. Os fins de semana de outubro são quase tão animados quanto o Carnaval e tornam-se uma prévia dele, pois na Penha os compositores lançavam seus novos trabalhos, numa espécie de vitrine, para o grande festejo de fevereiro.
Tia Ciata era uma das mais famosas freqüentadoras da Festa, onde armou sua barraca até morrer em 1924. O final da década de 20 marcou os últimos anos de prestígio do grande evento musical, um dos principais do início do século.
José Luiz de Moraes, o Caninha, compositor conhecido no começo do século, era um dos que frequëntava a Festa da Penha e lançava aí suas novas criações. Em 1922, disputando com Sinhô (que inscrevera Não É Assim), ganha o concurso com Me Sinto Mal, que ele chamava de “marcha ragtime” e que já na época garantia: “Quando chega o Carnaval/Ninguém lembra da carestia/Vamos todos para a Avenida/Caímos na folia”. Sinhô, o Rei do Samba, que não admitia derrotas, saiu furioso. O júri precisou de proteção policial.
“Naquele tempo não tinha rádio, a gente ia lançar música na Festa da Penha, a gente ficava tranqüilo quando a música era divulgada lá, que aí estava bem, que era o grande centro. Eu fiquei conhecido a partir da Festa da Penha.” (Heitor dos Prazeres).
Um samba que faz referencia ao evento denomina-se Festa da Penha, criado entre 1937 e 1940 e gravado pela primeira vez em 1958. Esse samba de Cartola e Asobert fala da famosa festa realizada no Rio de Janeiro, onde o devoto busca um terno para ir à festa fazer suas orações e pedidos:

“Uma camisa e um terno usado / Alguém me empresta /
Hoje é domingo / E eu preciso ir à festa / Não brincarei /
Quero fazer uma oração / Pedir à santa padroeira proteção
Levarei dinheiro para comprar / Velas de cera /
Quero levar flores / Para a santa padroeira / Só não subirei /
A escadaria ajoelhado / Pra não estragar / O terno que tenho emprestado”.
Fontes: História do Samba - Editora Globo e 12-bar Posting.
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